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8 de fevereiro de 2011

Estrangeiro e Estranho # 10 (ao vivo)

Numa aula de um curso de Italiano com alunos de várias nacionalidades, lê-se um texto em voz alta. Trata-se de moda, assunto aparentemente inofensivo. A dada altura, é a vez de a representante portuguesa do grupo ler uma parte do texto onde surge a palavra fodera*.

Não foi fácil explicar aos outros o motivo do ataque de riso que se seguiu.

*Acalmem essas mentes depravadas, significa forro!

11 de janeiro de 2011

Fui só eu...

...que ouvi o Mourinho pedir desculpa por falar português ao agradecer o prémio que recebeu ontem? Eu nem acompanho estas coisas da bola, mas não me pareceu ouvir o Messi pedir desculpa por falar espanhol.

[Desculpem lá qualquer coisinha, mas eu continuo a escrever em português, se não se importarem. Mas se insistirem mesmo muito posso começar a usar palavras em estrangeiro também. Eu não quero que vos falte nada!]

27 de dezembro de 2010

Pode ser que os dicionários também estejam em saldo...

Bem sei que a marca é espanhola e que os espanhóis não são conhecidos pela fluência em línguas estrangeiras. Mas dai a confundir a sexta-feira com o domingo...


O ano não está indicado, mas garanto que é 2010. Ora carreguem aqui se querem ver!

13 de dezembro de 2010

Estrangeiro e estranho # 9

É a última vez este ano que tento transmitir-vos alguma (pouca) sabedoria e decidi fazê-lo com uma curiosidade: as palavras mais longas.

Anticonstitucionalissimamente

é a maior palavra portuguesa, com apenas 29 letras, mas outras línguas há muito mais imaginativas. Basta ver o caso das línguas ditas polissintéticas, algumas das quais criam palavras gigantescas capazes de expressar frases completas. Veja-se o exemplo da língua aborígene Mayali com a pequenina expressão

ngabanmarneyawoyhwarrgahganjginjeng

que significa "cozinhei novamente a carne errada para eles". Não consigo imaginar a situação em que seja necessário utilizar esta palavrinha, mas eles lá saberão.

Outras línguas, como o Alemão, criam palavras compostas que têm a função de substantivo, juntando outras palavras da língua. Como o Dinamarquês faz com, por exemplo,

arbejdsløshedsundersøttelse

que deve estar muito na moda agora, pois significa subsídio de desemprego. Já os italianos, quando querem dizer "o mais depressa possível" usam

precipitevolissimevolmente.

Sou só eu que acho isto uma contradição?

Uma das palavras mais longas de sempre deve-se a Aristófanes que, certamente num momento de especial inspiração, criou esta palavra para designar um prato composto por todo o tipo de iguarias, peixe, caça e molhos:

lopado-temacho-selacho-galeo-kranio-leipsano-drim-hupotrimmato-silphio-karabo-melito-katakechumeno-kichl-epikossuphophatto-perister-alektruon-opto-kephallio-kigklo-peleio-lagoio-siraio-baphe-tragano-pterugon.

Se o sabor for equivalente ao tamanho, deve ser excelente!

Mas a maior palavra registada é o nome científico completo de uma proteína conhecida como Titina, com um total de 189.819 letras e é coisa para demorar cerca de 11 horas a ler. Quando não tiverem livros em casa, ou se sofrerem de insónias, aqui fica:

sequência interminável de letras aqui

Como já constatámos antes, há gente sem nada que fazer. Houve até alguém que se dedicou a criar uma palavra gigante para substituir outra que já existia. Útil, portanto. Trata-se da palavra

pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiose

e supostamente significa "uma doença pulmonar causada pela inalação de pó de sílica muito fina, que causa inflamação nos pulmões". Normalmente, chama-se silicose a esta condição médica, mas convenhamos que a nova palavra é muito mais divertida.

Inspirado por The Meaning of Tingo and Other Extraordinary Words from Around the World, Adam Jacot de Boinod.
Expirado e respirado por Tulipa Negra.

6 de dezembro de 2010

Estrangeiro e estranho # 8


Depois dos esquimós e das muitas palavras para neve, esta semana dedicamo-nos aos albaneses. Não conheço nenhum, que me lembre, mas imagino que sejam homens de barba rija. Ou de bigode, pelo menos, tendo em conta as várias palavras que utilizam para descrever esse tipo de pilosidade facial (espero bem que se refiram só aos homens...). Parece que existem 27 palavras diferentes, aqui ficam apenas algumas:

mustaqe - bigode
madh - farto
holl - fino
varur - com as pontas a cair
big - de pontas reviradas, tipo guiador de bicicleta
kacadre - com pontas viradas para cima
glemb - com pontas afuniladas
fshes - comprido, tipo vassoura, com pêlos hirsutos
dirs ur - bigode de adolescente, que começa a aparecer
rruar - de bigode rapado

Será albanês?

E que nome terá este bigodinho?
A obsessão dos albaneses com a pilosidade não se fica pelo bigode. Aparentemente, também possuem outras 27 palavras para descrever as sobrancelhas (e desconfio que também tenham uma mania qualquer com o número 27). Não sei porquê, mas fiquei sem vontade de os conhecer...

Inspirado por The Meaning of Tingo and Other Extraordinary Words from Around the World, Adam Jacot de Boinod.
Expirado e respirado por Tulipa Negra.

29 de novembro de 2010

Estrangeiro e estranho # 7



Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria…
Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!

Balada da Neve, Augusto Gil

Ei-la que chegou, ainda assim um pouco mais tarde do que nos últimos anos. A neve. E acho que em português não temos mais palavras para descrever este fenómeno atmosférico. Eventualmente, acrescentamos uns adjectivos, como neve dura ou mole ou derretida. Mas toda a gente já ouviu dizer que os esquimós têm várias palavras para a neve - o que é natural, tendo em conta que vivem com ela diariamente. Pois bem, aqui ficam algumas dessas palavras nas línguas Inuit. Espero que vos sejam úteis, se um destes dias andarem pelo Pólo Norte.

Neve kaniktshaq
Sem neve aputaitok
Nevar qanir, qanunge, qanugglir
Tempo de neve nittaatsuq, qannirsuq
Neve ou chuva fina kanevcir
Primeiro nevão apingaut
Neve leve a cair qannialaag
Molhada e a cair natatgo naq
No ar, a cair qaniit
Ar pesado com neve nittaalaq
Superfície ondulada com neve kiyuglak
Leve, suficientemente espessa para andar katiksugnik
Fresca sem gelo kanut
Estaladiça sillik
Suave para viajar mauyasiorpok
Mole e espessa onde é preciso sapatos de neve para viajar taiga
Neve como pó nutagak
Salgada pokaktok
Batida a vento upsik
Fresca nutaryuk
Compacta aniu
Estaladiça que parte ao andar karakartanaq
Lamacenta no mar qinuq
A melhor para construir um iglu pukaangajuq
A derreter mangokpok
Firme (a melhor para cortar, a mais quente, a preferida) pukajaw
Solta, acabada de cair que não pode ser usada assim mas pode ser um bom material de construção quando compactada ariloqaq
Para derreter e fazer água aniuk
Que os cães comem aniusarpok
A flutuar na água qanisqineq
Para construir auverk
Na roupa ayak
Sacudida da roupa tiluktorpok
Em muita quantidade na roupa aputainnarowok
Formação de neve prestes a cair navcaq
Nos ramos das árvores qali
Soprada para dentro de casa sullarniq
Tempestade de neve que bloqueia alguma coisa kimaugruk
Tempestade de neve com forma de seta kalutoganiq
Neve a flutuar no ar akelrorak
Tempestade de neve pirsuq, pirsirsursuaq, qux
Tempestade de neve violenta igadug
Avalanche sisuuk, aput sisurtuq
Ser apanhado numa avalanche navcite

Da próxima vez que forem para aqueles lados, já sabem dizer o que dizer no rádio quando ficarem presos numa avalanche.

22 de novembro de 2010

Estrangeiro e estranho # 6

Um palíndromo é uma palavra, frase ou qualquer outra sequência de unidades que pode ser lida tanto da direita para a esquerda como da esquerda para a direita, como por exemplo as palavras osso ou sopapos. Esta característica não é exclusiva do português e em finlandês encontramos alguns dos palíndromos mais longos do mundo:

saippuakivikauppias - vendedor de pedra-sabão
solutomaattimittaamotulos - o resultado de uma medição em laboratório para tomates

Há até quem se entretenha a inventar palíndromos mais complexos, muitas vezes sem sentido, como estes:

Anotaram a data da maratona
Assim a aia a missa
A droga da gorda
A mala nada na lama
A torre da derrota

Não que em estrangeiro façam mais sentido, atenção! Vejam, por exemplo, o que os finlandeses são capazes de fazer por uma cerveja: neulo taas niin saat oluen (tricota novamente para teres uma cerveja). Ou o que os alemães consideram uma mulher fina: Nie fragt sie: ist gefegt? Sie ist gar fein (ela nunca pergunta: foi varrido? Ela é muito fina).

Não pensem que este tipo de jogo de palavras é novidade, porque já os gregos antigos o usavam: 

ΝΙΨΟΝ ΑΝΟΜΗΜΑΤΑ ΜΗ ΜΟΝΑΝ ΟΨΙΝ (Lava também teus pecados, e não só o rosto)

Aliás, um famoso palíndromo bi-dimensional é uma inscrição latina que foi encontrada nas ruínas de Herculano e Pompeia. O quadrado é absolutamente simétrico - pode ser lido da esquerda para a direita, da direita para a esquerda, de cima para baixo e de baixo para cima. Existem duas alternativas propostas para a tradução, que não é consensual: "O semeador Arepo conduz cuidadosamente o arado" e "O criador mantém o mundo em sua órbita".

Quadrado Sator, também conhecido como quadrado mágico,
quadrado latino ou fórmula Sator
Em português, um dos maiores que encontrei foi este:

É volitar ter a ave... Lico domina e lê. Ática, Ana Morale, a ti, Paolo, todavia, relê. Assinada, ela fala: ‘– Sai, cala, foge, retrata, vá, ó Satim! (repetem o nosso nome). Te permitas o avatar ter ego. Falácias, Alá, fale à Danissa!’ Ele, raiva do tolo, apita... Ela, romana, a cita. Ele, ânimo dócil... Eva, a retrátil, o vê!

De onde se depreende que há por aí muita gente desocupada...

Inspirado por The Meaning of Tingo and Other Extraordinary Words from Around the World, Adam Jacot de Boinod.
Expirado e respirado por Tulipa Negra.

15 de novembro de 2010

Estrangeiro e estranho # 5

Vá, todos juntos: Llan-vire...
Lembram-se do vulcão islandês do Verão passado? Sim, o Eyjafjallajokull, esse mesmo. E lembram-se de ninguém saber pronunciar o nome, nem sequer ter a certeza de como o escrever? Pois bem, tenho a informar-vos que há por esse mundo fora nomes muito piores.

Comecemos pelo País de Gales, onde há uma terra com o impressionante nome de

Llanfairpwllgwyngyllgogerychwyrndrobwillantysiliogogogoch

Parece que esta lengalenga significa "Igreja de Santa Maria junto ao bosque de castanheiros, perto do redemoinho rápido e da gruta vermelha da Igreja de São Tisílio". Pelo que vi na Internet, até deve ser um sítio bonito. Mas já estou a imaginar uma conversa do tipo "Sabes onde vou estas férias? A Llanfairpwllgwyngyll...coiso...". Por isso é que no Verão eles rumam todos para o Allgarve, é mais fácil de pronunciar.

E esta, quem consegue dizer?
Na Nova Zelândia, uma pequena colina situada na baía de Hawke foi baptizada com o singelo nome de

Taumatawhakatangihangakoauauotamateaturipukakapikimaungahoronukupokaiwhenuakitanatahu

que significa literalmente "O cume da colina onde Tamatea, o homem de joelhos grandes, o escalador de montanhas, o comedor de terra, o viajante, tocou flauta nasal para sua amada". Romântico, sem dúvida, principalmente se ele tiver comido a terra antes de tocar a flauta.

Mas o recorde é da Tailândia, cuja capital é conhecida como Banguecoque, embora seja apenas o nome da cidade abreviado. Tendo em conta que não se deixam espaços entre as palavras no tailandês escrito, o verdadeiro nome é o seguinte*:  

Krungthephphramahanakhonbowonratanakosinmahintharayuthayamahadilokphiphobnovpharadradchataniburiromudomsantisug

Isto tudo para dizer "Cidade dos anjos, grande cidade e residência do Buda de esmeralda, cidade invicta do deus Indra, grande capital do mundo ornada com nove preciosas gemas, onde abundam enormes Palácios Reais que se assemelham à morada celestial onde reina o Deus reencarnado, uma cidade oferecida por Indra e construída por Vishnukarm". Custava muito chamar-lhe só Krung e pronto? Mania de complicar...

No outro extremo, temos os sempre pragmáticos europeus do norte. Na Dinamarca, na Noruega e na Suécia existem três localidades com o nome de A. Assim, só uma letrinha e logo a primeira do alfabeto para terem a certeza que ninguém se esquece deles. Com Z não encontrei nenhuma, mas só Y existe uma em França e outra no Alasca.

Bom, convenhamos que também temos alguns nomes de localidades de difícil pronúncia pelos estrangeiros, como Freixo de Espada a Cinta, Malhada do Mendo Marques de Baixo (Arraiolos) ou Quiaios (Figueira da Foz) que consegue a proeza de ser a localidade portuguesa com mais vogais seguidas no nome. Isto para não falar de nomes que são, simplesmente, hilariantes (suponho que já toda a gente tenha ouvido falar do Cu de Judas, mas vejam aqui mais alguns exemplos). Agora o que eu gostava mesmo era de ouvir alguém pronunciar estes nomes...

*Segundo a Wikipedia, o nome é Mahanakhon Amon Rattanakosin Mahinthara Yuthaya Mahadilok Phop Noppharat Ratchathani Burirom Udomratchaniwet Mahasathan Amon Piman Awatan Sathit Sakkathattiya Witsanukam Prasit e consta no livro dos recordes do Guinness como o maior nome de cidade do mundo, com 152 letras.

Inspirado por The Meaning of Tingo and Other Extraordinary Words from Around the World, Adam Jacot de Boinod.
Expirado e respirado por Tulipa Negra.

8 de novembro de 2010

Estrangeiro e estranho # 4

O original não é fiel à tradução. (Jorge Borges)


E agora em Grego, vá!

Perdoem-me o preciosismo, mas este vídeo tão divertido na realidade mostra um intérprete (que para o caso também serve) e dos bons! Muitas vezes confundidos, intérprete e tradutor não são a mesma coisa. Para quem não saiba, a diferença básica é simples: um tradutor escreve; um intérprete fala. Agradeço ao João ter-me recordado este vídeo.

Todas as expressões de que tenho falado nesta rubrica são de difícil tradução. Principalmente, por representarem realidades que não existem necessariamente noutras línguas - ainda aqui hei-de colocar as muitas palavras que os Esquimós usam para neve. Uma dessas dificuldades de que os falantes nativos de português se orgulham é a palavra saudade. Não é que os outros povos não a sintam, naturalmente que sim. Mas provavelmente não lhe dão a mesma importância, pelo que não necessitam de uma palavra específica para designar esse sentimento. Parecendo que não, a saudade é mesmo qualquer coisa tipicamente Tuga - talvez mais do que os pastéis de nata e o bacalhau...

Mas não pensem que somos só nós a ter palavras que dão dores de cabeça a qualquer tradutor minimamente aplicado. Neste artigo (enviado pela Ventania) verificamos que a nossa saudade aparece apenas em 7º lugar, atrás de ilunga (tshiluba) - uma pessoa que está disposta a perdoar quaisquer maus-tratos pela primeira vez (à primeira todos caem), a tolerar o mesmo pela segunda vez (à segunda cai quem quer), mas nunca pela terceira vez (à terceira ninguém cai) - e de shlimazl (ídiche) - uma pessoa cronicamente azarada. Ainda assim, parece que a próxima é mais difícil  de traduzir do que a saudade, embora eu não consiga perceber porquê: pochemuchka (russo) - uma pessoa que faz perguntas demais. Tenho de apresentar umas quantas pessoas aos tipos que fazem estas listas...

Tal como a saudade, a maioria das palavras difíceis de traduzir representam realidades ou situações para as quais não temos uma expressão específica (em alguns casos, no entanto, até davam jeito). Ora digam lá se não queriam ter palavras para:

  • desviar-se da chuva movimentando-se depressa, como em havaiano: 'alo'alo kiki (e eu que pensava que no Havai estava sempre bom tempo!)
  • nadar só com as mãos, também em havaiano: honuhonu (deve ser parecido com nadar à cão, mas eu estava convencida que os havaianos sabiam nadar como ninguém... enfim, mas um mito desfeito.)
  • carregar coisas à cabeça sem as segurar com as mãos, na língua zarma da Nigéria: tallabe (alguém sabe de uma palavra para isto, já que no interior do nosso rectângulo ainda há quem leve bilhas e fardos de palha à cabeça num equilíbrio capaz de desafiar as leias da física?)
  • sentir o corpo preso por estar sentado na mesma posição durante muito tempo, em checo, diz-se: přesezený (será que passam assim tanto tempo sentados na mesma posição para precisarem de uma palavra específica para isto? Quer dizer... podem sempre levantar-se e esticar as pernas antes, digo eu!)

Ainda assim, pelo menos no meu caso, útil mesmo era uma palavra como teklak-tekluk (indonésio) que designa aquele movimento da cabeça a cambalear com sono. As actas das reuniões de trabalho seriam muito mais realistas!

Inspirado por The Meaning of Tingo and Other Extraordinary Words from Around the World, Adam Jacot de Boinod.
Expirado e respirado por Tulipa Negra.

1 de novembro de 2010

Estrangeiro e estranho # 3

I see dead people.

Tendo em conta que ontem foi Halloween, hoje é dia de Todos-os-Santos e amanhã é dia dos fiéis defuntos (mais conhecido por dia de finados), vamos falar de fantasmas, aparições e companhia.

A crença de que depois de morrer há mais qualquer coisa está presente em quase todas as culturas e é expressa de várias formas em cada língua. Na Nicarágua (Ulwa), aparentemente acreditam que quando uma pessoa morre liberta um iwang wayaka, espírito invisível que faz barulho. Certo. Invisível até entendo, fazer barulho é que se dispensava porque nestas alturas os vivos precisam de descansar. Já no Nepal (Sherpa) usam a técnica hrendi thenok para contactar a alma de um morto, que pelos vistos não é barulhenta como na Nicarágua, caso contrário seria fácil contactá-la.

Os nossos amigos esquimós (Inuit) tentam a tarniqsuqtuq, a comunicação com um espírito que não consegue partir. E como é que eles sabem disso? Provavelmente, o espírito é barulhento e diz-lhes. Os persas, por seu lado, falam de raskh, ou seja, a transmigração da alma humana para uma árvore ou planta. Não é por nada, mas assim como assim preferia ser um passarito, sempre dava para viajar.

Mas o mundo do além é tema de muitos filmes de terror, sentimento também reflectido nas línguas. Os campeões neste campo são os indonésios. Vejam só estes três exemplos:

- wewe é o fantasma de uma mulher feia com seios descaídos (pois… cada um tem medo do que tem e nada a fazer);

- keblak é um galo fantasma que assusta as pessoas à noite com o barulho das suas asas (não conhecem a lenda do galo de Barcelos, com certeza, porque mais assustador do que o barulho das asas de um galo é um galo morto que desata a cantar);

- kuntilanak é um fantasma disfarçado de mulher bonita para seduzir os homens, que depois ficam horrorizados ao descobrir que, na verdade, ela tem um grande buraco nas costas (bem feita, ninguém os manda pensar com a cabeça errada e além disso é escolher entre o buraco nas costas desta e os seios descaídos da outra).

Para terminar, agora que se aproxima o Natal, nada melhor do que uma figura do gaélico escocês que, desconfio, deve ter influenciado em muito a ideia que temos do Pai Natal, mas ao contrário: bodach é o fantasma de um homem velho que desce pela chaminé para aterrorizar as crianças que se portaram mal. Pais que por aí andam, parece-me que deve ser mais eficaz do que simplesmente ameaçar que não levam prenda!

Inspirado por The Meaning of Tingo and Other Extraordinary Words from Around the World, Adam Jacot de Boinod.
Expirado e respirado por Tulipa Negra.

25 de outubro de 2010

Estrangeiro e estranho # 2


Zezé: O gajo era romancionista.
Tóni: Arrumava carros? Toxico-independente?
Zezé: Romancionista! Escrevia poemas!

A comunicação é essencial entre as pessoas, mas por vezes é dificultada por vários factores. Algumas línguas têm expressões muito úteis que descrevem essas situações específicas. Na Indonésia, por exemplo, suponho que seja complicado conviver com quem sofre de latah, o hábito incontrolável de dizer coisas embaraçosas (não confundir com lata em português que significa, basicamente, descaramento). Além disso, começo a achar que os indonésios não devem ser muito educados, se têm uma palavra específica para quem interrompe sem pedir desculpa: nyelonong. Piores do que os indonésios, só os falantes das línguas Inuit (vulgo, Esquimós), que até têm uma palavra para quem nunca responde: akkisuitok.

Já na China, terra com tantos milhões de habitantes, é natural que alguns toquem alaúde a uma vaca (dui niu tanqin - parece que é no sentido de falar por cima de outra pessoa ou dirigir-se ao público errado). Mais estranho é que haja quem hesite e murmure sozinho (chenyin), mas imagino que com tanta gente à volta seja a única forma de conseguirem ouvir os próprios pensamentos.

Os turcos, por seu lado, têm a expressão catra patra que designa o acto de falar uma língua incorrectamente, como os nossos Tóni e Zéze ou alguém que está a aprender a língua. E quando estamos a falar uma língua que não conhecemos bem, temos tendência para, além de falar mais alto, responder sim a tudo, especialmente se não percebemos o que nos disseram. Chama-se a isso, em russo, dakat'.

Eu nunca estive nas Ilhas Cook, mas desconfio que por lá deve haver muita coscuvilhice entre os Maori. É a única explicação para a existência da palavra 'o'onitua, que significa falar mal de alguém na sua ausência. Na Jamaica, terra conhecida por ser bem mais descontraída tendo em conta vários produtos naturais que por lá usam e abusam, a mesma palavra em patois serve para coscuvilhice e anedotas ou canções e memórias nostálgicas da escola: labrish.

E como por esta semana a lição já vai longa, despeço-me na língua do vulcão que nos atazanou a vida este Verão:  

bless!

Inspirado por The Meaning of Tingo and Other Extraordinary Words from Around the World, Adam Jacot de Boinod.
Expirado e respirado por Tulipa Negra.

18 de outubro de 2010

Estrangeiro e estranho # 1

 You had me at "Hello".

Nada como começar pelo início. Uma das palavras mais úteis e das primeiras a aprender numa língua estrangeira é, claro está, a forma de cumprimento. Um "olá" ou "bom dia" bastam, em português. Mas nem sempre é assim.

Se forem ao Senegal não se admirem de ouvir um simples aa (Diola), mas na Rússia podem ser surpreendidos por um khaumykhyghyz (Bashkir). Já na Serra Leoa, podem pensar que finalmente encontraram o Wally quando ouvirem wali-wali, mas é apanas uma forma de cumprimento. E no Canadá não voltou a moda do iô-iô, que se saiba, mas é natural ser saudado com um yoyo (tribos Kwakiutl). Já no Sri Lanka a economia de palavras ditou que se use ayubowan para bom dia, boa tarde, boa noite e adeus. Nada que os italianos não façam também com ciao, que tanto significa olá como adeus. É tão simples. Para quê complicar?

Para começar, chega. E agora vou-me embora sem dizer a ninguém onde vou, como fazem os índigenas Wagiman da Austrália:
Allahaismarladik

Inspirado por The Meaning of Tingo and Other Extraordinary Words from Around the World, Adam Jacot de Boinod.
Expirado e respirado por Tulipa Negra.