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15 de fevereiro de 2011

Felicidade

Foto de Rui Calçada, no site http://www.olhares.com/
Esqueceu-se de tudo. Esqueceu-se até de quem era, de como se chamava, de onde morava, do que fazia. Tivesse alguém feito uma dessas perguntas e a resposta seria certamente um olhar de incompreensão acompanhado de uma gargalhada sonora. Seguia pela rua cantarolando, ora correndo, ora dançando como sabia, mas sempre a sorrir, de braços abertos, os olhos brilhantes e os cabelos desalinhados. Gostava de sentir o vento no rosto e as roupas a esvoaçarem. Sentia-se livre, só lhe faltava voar. No seu caminho sem destino cruzou-se com pessoas que lhe falavam, com ar preocupado. Talvez os conhecesse, não sabia. Pareciam-lhe seres de outro mundo, não compreendia as suas palavras, os gestos eram-lhe estranhos. Continuava a rir, acenava-lhes em jeito de despedida, e seguia sem olhar para trás.

Chegou à margem do rio e parou. Ficou imóvel como uma estátua a olhar as águas paradas, as aves, cujo nome esquecera também, a voar em círculos, um ou outro peixe que via passar, os pescadores nos barcos e os outros, na margem, olhando o horizonte enquanto esperavam pacientemente que um peixe mais curioso mordesse o isco. Girou sobre si própria, olhou à volta, queria guardar toda aquela imagem para sempre na memória.

Recomeçou a rir, soltou gargalhadas sem fim, enquanto tirava os sapatos e o vestido leve de Verão com que tinha saído nessa manhã. Os pescadores, alarmados, chamavam-na, gesticulavam, mas ela não os ouvia. Recuou alguns passos, ganhou balanço e correu veloz, mergulhando de cabeça nas águas do rio. Ouviram-se gritos, apareceu gente nem se sabe de onde, correram todos na direcção daquela rapariga louca que se atirara ao rio. Alguém ligou para a polícia e chamou os bombeiros. Ela desaparecera nas águas turvas, para voltar a aparecer na outra margem, de sorriso no rosto. Sentiu-se uma onda de alívio percorrer os espectadores daquela cena quando a viram acenar-lhes, voltar costas e seguir o seu caminho, feliz.

20 de janeiro de 2011

Sonho de menina


Queria ser bailarina. O facto de não ter grande jeito para a dança e de não gostar de fazer exercício não me impedia de o desejar. Nunca segui esse sonho, fiz ginástica correctiva em vez de ballet, aprendi a nadar em vez de aprender a dançar, usei pilhas de livros em vez de usar tutú e sapatilhas de pontas.

Como eu gostava de conseguir fazer isto! Ainda hoje fico fascinada...

5 de novembro de 2010

Invisível

Nem sei por onde começar - e não me respondam "pelo início", já sei que é por aí que devia começar. O problema é que nem sei qual é o início... Bom, suponho que podia começar pelo início de tudo, mas o Big Bang já foi há uns milhões de anos valentes e talvez os dinossauros e a era glaciar não tenham nada a ver com esta história. Ou então pelo dia em que nasci, para mim foi o início de tudo, antes disso nem mundo havia. Mas a verdade é que desde esse dia também já passaram muitos anos, mais do que os que gostaria de contar, e provavelmente as minhas aventuras para começar a andar ou a falar não vêm ao caso. Nem sequer a escola primária onde me arrastei durante mais anos do que devia, as primeiras amizades que entretanto perdi e nem dos nomes me recordo, ou as quedas da bicicleta, mesmo com rodinhas de apoio - desastrado e desequilibrado, como se vê, em mais do que um sentido.

Mas como dizia, nada disto importa para o caso. Vendo bem, nem sei o que importa... A primeira relação amorosa? Talvez. A primeira séria, pelo menos, se bem que para mim todas eram sérias, achava sempre que aquela era a definitiva, era com esta que ia casar e viver feliz para sempre, desde a primeira, aos 15 anos. Bom, deveria antes ter dito a primeira desilusão amorosa, claro está. Foi de facto nessa altura que descobri que era invisível. Quando ela me olhava e não me via, quando falava de mim como se eu não estivesse presente, quando me tocava sem me sentir, quando tomava decisões sem se lembrar de mim e quando decidiu pôr fim àquela relação por já nem se lembrar que estávamos juntos. Este padrão repetiu-se em quase todas as relações amorosas seguintes - não que tenham sido muitas, mas ainda assim foram algumas. Parece que de início sou apenas transparente, notam-se ainda alguns contornos, mas com o tempo a minha condição piora e deixam de me ver de todo.

Depois houve também o emprego que arranjei com a cunha do meu padrinho, não tenho problema nenhum em assumir - sou transparente até nisto. Enfiaram-me numa sala sem janelas, com um computador e vários armários de arquivo, e deixaram-me estar para ali à minha vontade, sem me incomodarem. Só estranhei quando, meses mais tarde, apareceu outra pessoa para fazer o mesmo trabalho que eu... Nunca hei-de esquecer o ar de espanto na cara do chefe quando deu comigo ali, o ar atrapalhado a tentar explicar a situação ao novo funcionário, sem saber muito bem o que dizer, até porque mal me viam! "Estou novamente invisível", pensei.

Já vos disse que casei? Claro que não, que disparate. Pois é, mas casei mesmo, numa cerimónia linda toda organizada pela minha mulher. Se bem que desconfio que o padre nem percebeu muito bem com quem estava a casar aquela mulher, de vez em quando fazia um esforço notório para me ver, franzia o sobrolho e voltava a cabeça na minha direcção. Depois desse dia, tornei-me ainda mais invisível, pelo menos cá em casa. A minha mulher põe, dispõe, faz, decide e nem me vê. Os meus filhos, tenho dois, fazem o mesmo. Desde que se tornaram adultos, principalmente, agem como se eu nem existisse. De transparente a invisível a inexistente, suponho que seja a evolução natural da minha condição.

Pergunto-me como será quando morrer. Imagino o velório, o caixão aberto sem nenhum corpo lá dentro que se veja, toda a família e amigos a olharem, desorientados, a sofrer, a chorar... Porquê? Por quem? E na lápide as palavras “Aqui jaz um homem que nunca ninguém viu".

É esta a história da minha condição: condenado de nascença a passar pela vida sem ser visto. Mesmo vocês que me lêem, não me vêem aqui, à vossa frente, enquanto escrevo estas linhas. Estou cansado, mas nada posso fazer a não ser continuar o meu caminho até que alguém me veja, se conseguir...

Transparência, Fábrica de Letras.

11 de outubro de 2010

Alucinações

Encontro-me numa praia deserta, paradisíaca. O sol alto aquece-me a pele, o mar azul-turquesa ao fundo confunde-se com o céu no horizonte. As palmeiras proporcionam-me a sombra necessária. Ao meu lado, uma mesa onde está pousado um copo alto com uma bebida colorida enfeitado com um pedaço de ananás e um chapelinho de papel. Estou de férias, penso. Fecho os olhos e sorrio, feliz.

Inesperadamente, ao som do mar sobrepõe-se um ruído muito forte, um estrondo que se prolonga durante alguns segundos. Abro os olhos e vejo um clarão ao longe, em tons amarelos e vermelhos, uma chama que atinge a altura de vários arranha-céus. Sinto uma onda de choque que me atira ao chão de pedra e faz estremecer tudo à minha volta. Já não estou na praia e não percebo o que se passa. Levanto-me e começo a andar na direcção da luz, agora azulada, desviando-me de outras pessoas e dos carros que travam a fundo e buzinam, num súbito caos.

Consigo finalmente aproximar-me e vejo que a luz diminuiu de intensidade e de tamanho. Sem saber como, chego muito perto e estou afinal em casa, a olhar para dentro do forno cuja luz está acesa e onde vejo um bolo a cozer. Toca uma campainha, indicando que o bolo está pronto. Abro o forno, tiro a forma sem usar pegas nem qualquer espécie de protecção, mas não me queimo, e olho incrédula para as minhas mãos, imaculadas.

Não sei onde pus a forma, mas as minhas mãos, agora vazias, parecem-me gigantes. Sou tão pequenina! Tenho apenas cinco anos, estou na rua a brincar com outras crianças da minha idade. A minha avó chama-me, à janela: são horas de jantar. Olho e vejo-a sorrir.

Subo apressada as escadas do prédio onde moro e entro numa sala que não reconheço. Paredes e chão em metal, uma luz fria proveniente das lâmpadas fluorescentes do tecto alto, macas de hospital encostadas às paredes e, ao fundo, uma mesa enorme cheia de instrumentos cirúrgicos. Sou novamente adulta e estou assustada. Abre-se uma porta que até aí não tinha visto, na parede do lado direito. Oiço uma voz gritar, enérgica "Goooooood Morning, Vietnaaaaaam!" ao mesmo tempo que entra na sala o E.T. com um vestido de menina e um chapéu enfeitado com frutas e flores.

Sinto um cheiro intenso a pinho. Olho em volta. Estou no meio de um pinhal imenso, árvores de copas gigantes, a caruma pica-me os pés descalços. Oiço música a tocar mas não identifico de onde vem. Resolvo seguir o urso que me acena e sorri, mostrando-me um pote de mel enquanto se afasta na direcção de uma clareira. Quatro músicos tocam uma melodia alegre. Ao aproximar-me, vejo que não são humanos: um tigre, um elefante, um golfinho e o urso. Acho estranho encontrar ali um golfinho, que se oferece para me dar boleia assim que terminar o espectáculo, falando numa língua que não conheço, mas compreendo.

Aceito. Levantamos voo quase de imediato, uma hospedeira oferece-me uma lata de feijão, um copo de água e um livro. Começo a ler as páginas em branco, mas percebo a história que me envolve de uma forma pouco habitual. Deitada na minha cama, tapada com o edredão porque é Inverno e está frio, viro as páginas enquanto como bolachas de chocolate e carrego no acelerador.

A estrada está deserta, conduzo um carro que não é meu e onde sigo sem companhia. Acelero cada vez mais, atinjo uma velocidade que me parece irreal, deveria estar a voar! Oiço a sirene do carro da polícia que me persegue, não conseguindo contudo acompanhar-me. Ao meu lado, no lugar do morto, o Calimero, de casca de ovo na cabeça, queixa-se continuamente. Perco a paciência, abro a porta e empurro-o para fora com o carro em andamento. Oiço apenas um grito cada vez mais afastado. Buzino em resposta. Volto a buzinar, uma e outra vez, e mais outra e ainda outra. Estou a ficar com dores de cabeça mas não paro de buzinar.

Abro os olhos. Encontro-me numa praia deserta, paradisíaca…

8 de outubro de 2010

O banco de jardim

(Fotografia de FJPR em Olhares.com)

A meio da subida, na berma da estrada, há um banco de jardim (ainda se chamará banco de jardim não estando num jardim?). Vi-o hoje pela primeira vez, nunca antes tinha reparado nele apesar de ali passar todos os dias, duas vezes por dia. Nunca lá vi ninguém sentado, também. Suponho que é possível que alguém se lá sente, de outra forma não passa de um banco de jardim na berma da estrada, sem qualquer utilidade. E se não tem utilidade, para quê existir? Um objecto tem uma utilidade definida, foi criado com um propósito e quando não o serve, quando deixa de nos servir, torna-se inútil, portanto supérfluo, e logo deixa de ter razão de existir.

Sempre achei os bancos de jardim tristes, quando vazios. Como se estivessem incompletos sem alguém lá sentado, como se lhes faltasse uma parte da sua essência. Como se o velho que ali descansa os ossos por uns minutos antes de continuar o seu caminho vagaroso ou o casal de namorados que se beija apaixonadamente lhe conferissem toda a razão da sua existência. Servir. É para isso que existem os bancos de jardim. Para proporcionar uns minutos de descanso à sombra das árvores num dia quente de Verão, para dar dois dedos de conversa com um amigo, para ler um livro, para esperar alguém que teima em chegar sempre atrasado.

Tal como as pessoas que vamos encontrando ao longo da vida. Também elas têm um propósito, uma razão de existir, que é diferente para cada um. Aquela pessoa, por exemplo, que para mim não passa de um conhecido com quem troco uns cumprimentos por obrigação mais do que por prazer, para alguém será certamente muito mais importante: pai, marido, irmão, filho… Certas pessoas têm uma utilidade limitada no tempo, uma espécie de prazo de validade. Entram na nossa vida no momento certo, cumprem determinada função essencial, ajudam-nos a crescer e a evoluir - mesmo aquelas de quem não gostamos ou que nos fazem mal. E quando deixam de nos servir, quando já não nos fazem falta, quando começam a apodrecer, desaparecem. Simplesmente. E é assim que deve ser. Sempre.

Por mais que os bancos de jardim pareçam tristes quando estão vazios.

4 de outubro de 2010

Lembras-te?

- Cheira a chuva.
- Cheira a quê?
- A chuva.
- Mas a que cheira a chuva? A chuva é água, não tem cheiro...
- Não digas disparates! Claro que a chuva tem cheiro.
- Eu nunca senti o cheiro da chuva. Sinto o toque da chuva, as gotas a caírem-me na cabeça, e até já lhe senti o sabor, mas o cheiro nunca.
- O sabor da chuva?
- Sim. Quando chove, abro a boca e deito a língua de fora para apanhar as gotas que caem.
- E consegues apanhá-las?
- Claro que sim! Fecho os olhos, inclino a cabeça para trás, abro a boca e espero.
- Deves ficar com um ar de doida...
- E a mim que me importa? Sabe-me bem, sinto-me bem assim. Gosto do sabor da água fria da chuva. Mata-me a sede.
- Mata-te a sede? Mas não deves conseguir apanhar mais de umas poucas gotas...
- Não se trata de quantidade, mas de qualidade.
- Qualidade? Agora queres convencer-me de que a água da chuva é melhor do que a outra?
- Nada disso. Não sei se é melhor ou pior, nunca me informei sobre o assunto. Mas o prazer que sinto com aquela meia-dúzia de gotas de água é incomparável. Naquele instante, por uns segundos, sou novamente criança. Não tenho preocupações, nem obrigações, nem prisões... Sou feliz.
- E agora não és feliz?
- Sou, claro. Não tenho motivos para não ser. Mas não tanto como quando sinto o sabor da chuva.
- ...
- Não dizes nada?
- Não sei que te responda...
- É assim tão estranho gostar de beber a chuva?
- Não sei. Eu prefiro sentir-lhe o cheiro.
- E ele a dar-lhe... Qual cheiro?
- O cheiro da terra molhada pelas primeiras chuvas...
- Sabes que não passa do cheiro das bactérias em contacto com a água?
- Sei. Nem por isso deixa de ser bom. Mas não é só esse cheiro.
- Não é?
- Não. É o cheiro da renovação, é o cheiro do amor, é o cheiro da vida a recomeçar.
- Não quererás dizer a acabar?
- Claro que não! Com a chuva recomeça o ciclo da vida.
- Seja como for, agora não está a chover. Como podes dizer que cheira a chuva?
- Sinto o cheiro da chuva a chegar.
- Ah! Agora também és meteorologista?
- Não brinques, estou a falar a sério. Sinto no ar um aroma especial, que nem sei definir...
- Mas sabes que é aroma de chuva?
- Sei.
- Como podes ter a certeza?
- Porque é o cheiro que senti quando te beijei a primeira vez. Estava a chover, lembras-te?

O Cheiro da Chuva, Fábrica de Letras

3 de outubro de 2010

Nonsense (ou talvez não), agora em língua de gente

Ao fim do dia, no autocarro, uma senhora que acabou de fazer a limpeza nos escritórios conversa com outra que é empregada de mesa, mas que actualmente não trabalha porque está de baixa. Aparentemente, o marido da primeira é ladrilhador e trabalha ali naquele edifício ao fundo da rua que tem os andaimes encostados à parede. Amanhã tem um dia muito ocupado pois tem de pôr os azulejos na entrada.

E depois há o outro que bate à porta do escritório e pergunta, antes de entrar: 
- Posso incomodá-la?


(A primeira versão não era muito mais divertida? Era.)

1 de outubro de 2010

Nonsense (ou talvez não)

Ao fim do dia, no bus, uma senhora que acabou de fazer os birús conversa com outra que é servosa, mas que actualmente não trabalha porque está de maladia. Aparentemente, o marido da primeira é carrelor e trabalha ali naquele batimento ao fundo da rua que tem a chafurdagem encostada aos muros. Amanhã tem um dia muito ocupado pois tem de pôr a carrelagem na entrada.

E depois há o outro que bate à porta do birú e pergunta, antes de entrar: 
- Posso desarranjá-la?

20 de setembro de 2010

Nada e coisa nenhuma

Apetece-me escrever, mas não sei o quê. Olho para o ecrã e não me vem nada à ideia. É a metafórica folha em branco do escritor, que tanto o faz desesperar, não que me considere escritora, atenção, nada disso. Conheço bem as minhas limitações e nunca me passaria pela cabeça comparar-me a um escritor. Excepto talvez na acepção mais literal de “aquele que escreve”. Nesse sentido, sim, sou escritora. Ou seria, se conseguisse escrever alguma coisa. Mas não consigo. Olho para o ecrã, pouso as mãos no teclado - que é feito das canetas? Já ninguém escreve à mão... Também nunca tive uma caligrafia bonita, pelo que talvez seja melhor assim. Mas dizia: olho para a folha em branco no ecrã e, com as mãos no teclado, procuro as palavras que não encontro, o assunto, qualquer assunto, e só consigo pensar em disparates, idiotices, anedotas que até nem devem ter piada nenhuma, mas que me fazem rir sozinha - estarei doida? É possível. Doida por doida, ao menos que o seja oficialmente, de papel passado, sempre dava para justificar determinadas atitudes que me apetece tomar mas não posso, porque dizem que sou normal. Sabem lá! Se imaginassem o que me passa pela cabeça… No mínimo, internavam-me na hora, isolavam-me num quarto almofadado, trancavam a porta e deitavam a chave fora, ao rio ou ao mar, para nunca mais a encontrarem.

Gostava de conseguir escrever só porque sim, quando quero. Há pessoas assim (acho que também já fui assim), que sem pensar deitam cá para fora tudo o que lhes vai na cabeça, capazes de discorrer durante páginas seguidas sobre qualquer assunto, desde a plantação das batatas à teoria mais recente da física quântica. Podem não perceber nada do assunto, os conhecimentos que têm podem advir do cabeçalho da notícia que acabaram de ler, provavelmente nem deram atenção à notícia toda, basta-lhes só o título para logo ali formarem uma opinião e terem assunto para, pelo menos, umas quinhentas palavras. A qualidade ou não do produto final não vem agora ao caso. A qualidade dos meus produtos finais, provavelmente, também deixa muito a desejar, em comparação com os de outros seres mais dotados para a escrita. Se bem que, não é para me gabar, mas parece-me que de vez em quando consigo escrever qualquer coisa de jeito. Não será uma obra-prima, pois não, que eu não vim aqui inventar a roda nem descobrir o fogo, mas é uma obra minha, e isso já é mais do que muita gente pode dizer. Boa ou má, de qualquer forma, são conceitos subjectivos. Quem define o que é bom ou mau? Camões é bom? Dizem que sim, mas os estudantes do ensino secundário acham que não. Margarida Rebelo Pinto é boa (refiro-me à sua escrita, claro, que do resto julgarão outros)? Dizem os críticos que a leram que não, mas as vendas dos seus livros apontam no sentido contrário. E então? Acreditamos nos críticos, académicos, (em princípio) conhecedores do que falam, se não levarmos à letra a velha história de "quem sabe faz, quem não sabe critica", ou seguimos a opinião do povo, inculto na sua maioria, praticamente analfabeto até, que isto de saber ler tem muito que se lhe diga e não é só juntar as letrinhas e perceber que b+a=ba, mas que sabe do que gosta e por isso compra? Mas estamos a falar do mesmo povo que lê a revista Maria e o jornal O Crime e acredita em tudo o que lá vem escrito, que idolatra o Tony Carreira e que não vai ao teatro porque é caro mas não perde um jogo de futebol no estádio...

Podia, talvez, escrever sobre o tempo ou sobre o último filme que vi. Calhou ser o Salt, com a Angelina Jolie, mais um filme-chiclete, mastiga e deita fora, sem demora, já cantavam os outros e com razão, com uma tal confusão entre espiões americanos e russos e estes sãos os bons mas afinal já não são e daí a dez minutos já são outra vez e aquele que era mau afinal é a vítima e a coisa é tão confusa que termina da única forma que conseguiram, mesmo, mesmo a cheirar a sequela para ver se arranjam um final decente para a história.

Ou então podia dedicar umas linhas à última guerra blogoesférica de que me apercebi, que estas coisas passam-me todas ao lado, felizmente. Alguém teve a infeliz ideia de fazer um post a perguntar qualquer coisa como "qual o blog que mais odeiam?" e, pasme-se!, ouve centenas de respostas, cada uma menos fundamentada do que a anterior, odeio porque sim, pronto, é o meu direito, sem razão, simplesmente porque não gosto do que este ou aquele escreve e mais nada, não que eu seja melhor ou pior, mas odeio mesmo e acabou a conversa. E foi tanto o veneno destilado naquela caixa de comentários que fiquei a pensar: se um destes tem o azar de morder a língua, morre envenenado. Apeteceu-me apenas perguntar, se não gostam por que raio continuam a ler?, que eu quando não gosto de alguma coisa não volto lá, é tão simples e cansa muito menos, mas isto sou eu que, como já disse, sou doida e só estou aqui a fazer tempo até chegarem os senhores da bata branca para me levarem.

Também podia comentar a actualidade, hoje em dia qualquer um é comentador e ainda para mais na Internet, é largar postas de pescada a torto e a direito que toda a gente pode e deve ter opinião. São os arguidos do caso Casa Pia que agora já são os culpados do caso Casa Pia, excepto o Carlos Cruz que, por maioria de razão do povinho que adorava o 1, 2, 3 e a Bota Botilde, continua hoje e sempre inocente, ou pelo menos não foi só ele, os outros também lá estavam, que isto de ser condenado sozinho não tem piada nenhuma. São os franceses a expulsar os romenos e os búlgaros, perdão, é o Sarkozy a expulsar os ciganos, assim é que é, mais o nosso adorado Cherne a dar-lhe na cabeça, vá lá, haja alguma coisa que o homem faz que se pode dizer que até nem foi mal feita. Mas como acho que não tenho nada de novo a acrescentar às milhares de linhas que já foram escritas sobre estes assuntos, calo-me.

Claro, podia sempre falar de desgostos de amor, que toda a gente tem, se tiver sorte, porque é como dizia o outro "It's better to have loved and lost than never to have loved at all", mas o mais certo era sair um relambório de tal forma deprimente que ninguém teria paciência para aqui voltar, provavelmente nem eu. Ou das histórias da minha infância, dos dias de Verão passados na rua, com os amigos que terão para sempre um lugar especial no meu coração, apesar de todos termos seguido vidas muito diferentes e a amizade acabar por se perder, ou dos outros que fui encontrando ao longo da vida, uns desapareceram, outros ficaram, outros ainda reapareceram e é tão bom, tão bom, reencontrar estas pessoas, e as histórias que vivemos juntos, tantas histórias que poderia contar, ainda que ao fazê-lo corresse o risco de me internarem mais depressa. A minha vida não dava um filme, não tenho ilusões, sei que é apenas mais uma e que há gente com vidas muito mais interessantes do que a minha, com aventura e tragédia e tudo o mais, mas é a minha vida e só por isso é muito mais importante do que todas as outras, até porque é a única que ainda consigo, de vez em quando, controlar.

Outra hipótese seria entrar no domínio da ficção. Escrever uma história policial, cheia de mistério, daquelas com reviravoltas inesperadas capazes de deixar o leitor de boca aberta, com vítimas ingénuas e criminosos diabólicos, piores do que os da série Criminal Minds, de que não perco um único episódio, gosto tanto daquilo que me assusta pensar que algumas daquelas coisas podem ser reais. Ou uma história de amor, um amor impossível, claro, são as únicas histórias de amor que interessam, a luta dos apaixonados pelo amor que os une, contra tudo e contra todos - está mais que visto, bem sei, Shakespeare escreveu a primeira, a última e a definitiva, a tragédia de Romeu que se mata por pensar que Julieta morreu, Julieta que acorda e se suicida ao ver Romeu morto... é impossível fazer melhor, ninguém o fez até agora e também não tenho pretensões disso, credo!, como disse no início: conheço bem as minhas limitações.

Vendo bem, parece que ideias até não me faltam, a imaginação é fértil e não tem limites. Falta talvez a vontade de me alongar sobre os assuntos, ou a coragem de pôr tudo isto no papel, ainda que virtual.

E assim se escreve um texto sobre nada, a falar de coisa nenhuma.

Tema Livre, Fábrica de Letras

11 de setembro de 2010

O dia em que o meu mundo mudou

O despertador tocou à hora marcada, acordando-me de uma noite mal dormida. Estava na hora. Como um zombie, arrastei-me pela casa, terminando as tarefas que ainda tinha de fazer antes de sair. Uma hora depois, tinha as malas à porta. Olhei uma última vez para trás, respirei fundo, saí e fechei a porta, mal conseguindo conter as lágrimas. Desci no elevador e entrei no carro que havia de me levar ao aeroporto. Pelo caminho, ia pensando na decisão que tomara uns meses antes. Não tinha agora a certeza de ser a mais correcta. Partir assim, à aventura, largar tudo, deixar para trás a família, os amigos, a cidade, o rio e o mar… Para quê? E repetia para mim mesma que era em prol de um futuro melhor, que nada seria como antes e tudo se resolveria. Que um dia teria a certeza que tudo valera a pena.

Vários anos passados, continuo a repetir: um dia terei a certeza que tudo valeu a pena. Apesar das lágrimas, apesar da tristeza, apesar da distância. Um dia...

Tema Livre, Fábrica de Letras

4 de agosto de 2010

Insatisfação

Abri as asas e voei. Subi em linha recta até às nuvens, depois virei à direita e planei paralela ao solo. Lá em baixo, a cidade. Os prédios enormes, as casas, as ruas, os carros, as árvores (poucas, muito poucas) e as pessoas. Visto aqui de cima, tudo é tão pequeno, insignificante. Fico assim uns minutos, a observar a vida frenética. Oiço os sons da vida a passar normalmente, observo as pessoas apressadas, a correr de um lado para o outro, aquele condutor a discutir com o outro, a esbracejar, furioso, ainda tem um ataque cardíaco antes do tempo, o rosto vermelho de raiva, as veias do pescoço a latejar. E admiro-me de conseguir ver tantos pormenores a esta distância. Mas não estou longe, afinal. Sem me aperceber, desci quase até ao nível do solo, estou a pairar pouco acima dos tejadilhos dos carros parados em filas intermináveis de trânsito.

Volto a subir, desta vez rodopiando até atingir a altitude certa, acima das nuvens, fecho os olhos e sinto o vento no cabelo e o sol a aquecer-me o rosto. Cansei-me da cidade. Decido seguir viagem ao longo do rio até chegar ao mar. A praia quase deserta a esta hora, estão a chegar os madrugadores, avós com netos, principalmente, carregados de chapéus de sol, cestas de verga e geleiras, toalhas de praia ao ombro, baldes de plástico, pás e ancinhos... Também estes falam alto, as crianças aos guinchos, a fazer birra logo de manhã, a avó a gritar para se calarem, o avô a ralhar com a avó para deixar o neto em paz que é uma criança e tem de se divertir e logo ali começa uma discussão que há-de durar até à noite. Aproximo-me mais, fito nos olhos a criança que se cala subitamente, subo novamente tão depressa como desci, os avós voltam-se sem perceber o que se passou, mas aliviados por ter acabado a gritaria.

Sigo o meu caminho e atravesso o mar. Vejo barcos de pesca, depois veleiros, por fim cargueiros e navios de cruzeiro. Vejo baleias a saltar e tubarões a caçar, vejo focas e leões marinhos e vejo gelo, muito gelo. Está frio, por isso decido dar meia-volta e seguir noutra direcção. Volto a entrar em terra, atravesso campos, passo por rios, vales, montanhas, aldeias, vilas, cidades, países. Ali a estátua da Liberdade, daquele lado a Torre Eiffel, lá ao fundo o casario branco das ilhas gregas, deste lado o deserto, acolá a selva africana mesmo juntinha à muralha da China. Vejo tigres, leões, pinguins, cangurus, macacos, pássaros de todas as cores acompanham-me por onde vou. E as pessoas, afinal, que são iguais em todo o mundo.

Vi tudo o que havia para ver. Dei a volta ao mundo inteiro e percebi que já não há nada de novo, nada de interessante, nada de estimulante. Aterrei novamente em casa por alguns minutos. Olho em redor e o que vejo? Fotografias das pessoas que foram importantes na minha vida, mas já nenhuma existe. Objectos acumulados ao longo de uma vida inteira e que a certa altura significavam tudo. Sorri ao perceber finalmente que nada daquilo era importante, não passavam de objectos, como era possível ter pensado que não conseguia viver sem tudo isto?

E de sorriso rasgado no rosto voltei a levantar voo, subi a direito, passei as nuvens, passei o sol, e continuei a minha viagem pelo espaço à procura de um novo mundo.

Uma longa viagem, Fábrica de Letras

30 de julho de 2010

Da minha janela

Ele para à esquina ao vê-la subir a rua. Ela apressa o passo, desvia-se de um carro estacionado em cima do passeio e vai ter com ele, o sorriso rasgado nos lábios, inconscientemente. Ele disfarça os nervos olhando para o telemóvel, como a indicar que há outras pessoas com quem poderia estar - mas não há, e ambos o sabem muito bem. Quando finalmente se aproximam, ele beija-lhe a face, junto ao pescoço, um único beijo muito mais revelador do que se a tivesse beijado nos lábios. Tira-lhe o saco do ginásio que ela carregava ao ombro, dá-lhe a mão, e seguem o seu caminho a olhar-se nos olhos.

18 de julho de 2010

Sair da rotina


 Sentada à secretária, deu por si a pensar que não gostava da vida que tinha. Não gostava do emprego, do que fazia, do sítio onde morava, de ainda viver com os pais quase aos 30 anos. Sentia-se presa e acomodada naquela rotina de onde ainda não tinha tido coragem para sair. Levantava-se todos os dias à mesma hora, saía de casa, entrava no carro, fazia os 50km de auto-estrada até chegar ao emprego, entrava e sentava-se atrás da secretária. Falava com os colegas apenas o indispensável, pois não gostava deles - e parecia-lhe que eles também não gostavam dela. Até com o patrão falava apenas quando não podia deixar de ser. Afinal, aquele era um emprego provisório, enquanto não arranjava outro mais de acordo com as suas capacidades e habilitações. Não tinha andado a estudar tantos anos para acabar como assistente de um tipo que não tinha sequer o ensino secundário completo.

Ao fim do dia, voltava a entrar no carro e a fazer os mesmos 50Km de auto-estrada até chegar a casa. Cansada, sem vontade de estar com ninguém, ainda assim arranjava forças para conversar com os pais durante o jantar, antes de sair com o namorado. O namorado, de quem também não sabia se gostava. Ou antes, gostava dele, não sabia se gostava de estar com ele, o que são coisas bem distintas. Ele parecia gostar realmente dela, fazia de tudo para a ver feliz. Mas ela não se sentia feliz. Ele trabalhava e estudava ao mesmo tempo, mas a ela parecia-lhe que ele não se esforçava por terminar o curso, embora se queixasse constantemente do emprego que tinha. Um falso ambicioso, sem vontade de fazer fosse o que fosse por mudar a situação, era assim que ela o via. E a certa altura começou a arranjar desculpas para se verem cada vez com menos frequência

Naquele dia, sentada à secretária, decidiu que tinha de fazer alguma coisa para mudar a sua vida. Levantou-se, entrou no gabinete do patrão e despediu-se. Sentiu um alívio, como se lhe tirassem um peso de cima dos ombros. Saiu sem olhar para trás, entrou no carro e ligou ao namorado. Disse-lhe que queria acabar tudo, não por não gostar dele, mas porque às vezes não basta gostar. Sentiu-se ainda mais aliviada. 

E agora sem emprego, sem namorado, sem saber o que iria ser a sua vida, estava finalmente livre. E feliz.

12 de julho de 2010

O Fim?

 
Saiu de manhã, sem destino. Fez-se à estrada sem saber onde ia. Contentou-se em seguir o caminho que a vontade lhe ia ditando. Deu por si numa praia, afinal o caminho era o que tantas vezes tinha feito. Inconscientemente, tinha seguido a estrada que lhe era mais familiar, como se fosse o carro que conhecesse o caminho e ela apenas se limitasse a girar o volante, acelerar e travar, ao sabor da vontade da máquina. No parque de estacionamento deserto, na falésia em frente à praia que tão bem conhecia, parou. Deixou-se ficar dentro do carro, cruzou os braços no volante e pousou o queixo nas mãos. Ficou assim, a olhar o mar, as ondas que rebentavam nas rochas, as gaivotas que revolteavam no céu, por entre as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto. E pensou em tudo o que lhe acontecera e a trouxera até àquele momento. Como pudera ter sido tão ingénua? Como pudera ter ido contra todos os seus instintos? Se desde o início sabia, tinha a certeza no seu íntimo, que dali nada de bom poderia vir. E ainda assim deixara-se levar pelo coração, ignorando a razão, os amigos, a família. Acreditara, quisera acreditar, que todos estavam errados, que tudo iria correr bem. Acabara por se afastar de todos por não conseguirem vê-lo como ela o via. Agora que tudo acabara, estava só. Não tinha com quem falar, em quem confiar, nem sabia se conseguiria voltar a confiar em alguém. Sentia-se num beco sem saída, sem saber para onde se virar, sem qualquer objectivo na vida e, principalmente, sem coragem para voltar atrás e procurar ajuda. Deixara de ter uma razão para viver. E decidiu, ainda que não tivesse essa ideia quando saíra de casa umas horas antes, que o seu sofrimento acabava ali, naquele momento. Ligou o carro, olhou uma última vez o mar, as ondas, as rochas e as gaivotas...