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15 de fevereiro de 2011

Felicidade

Foto de Rui Calçada, no site http://www.olhares.com/
Esqueceu-se de tudo. Esqueceu-se até de quem era, de como se chamava, de onde morava, do que fazia. Tivesse alguém feito uma dessas perguntas e a resposta seria certamente um olhar de incompreensão acompanhado de uma gargalhada sonora. Seguia pela rua cantarolando, ora correndo, ora dançando como sabia, mas sempre a sorrir, de braços abertos, os olhos brilhantes e os cabelos desalinhados. Gostava de sentir o vento no rosto e as roupas a esvoaçarem. Sentia-se livre, só lhe faltava voar. No seu caminho sem destino cruzou-se com pessoas que lhe falavam, com ar preocupado. Talvez os conhecesse, não sabia. Pareciam-lhe seres de outro mundo, não compreendia as suas palavras, os gestos eram-lhe estranhos. Continuava a rir, acenava-lhes em jeito de despedida, e seguia sem olhar para trás.

Chegou à margem do rio e parou. Ficou imóvel como uma estátua a olhar as águas paradas, as aves, cujo nome esquecera também, a voar em círculos, um ou outro peixe que via passar, os pescadores nos barcos e os outros, na margem, olhando o horizonte enquanto esperavam pacientemente que um peixe mais curioso mordesse o isco. Girou sobre si própria, olhou à volta, queria guardar toda aquela imagem para sempre na memória.

Recomeçou a rir, soltou gargalhadas sem fim, enquanto tirava os sapatos e o vestido leve de Verão com que tinha saído nessa manhã. Os pescadores, alarmados, chamavam-na, gesticulavam, mas ela não os ouvia. Recuou alguns passos, ganhou balanço e correu veloz, mergulhando de cabeça nas águas do rio. Ouviram-se gritos, apareceu gente nem se sabe de onde, correram todos na direcção daquela rapariga louca que se atirara ao rio. Alguém ligou para a polícia e chamou os bombeiros. Ela desaparecera nas águas turvas, para voltar a aparecer na outra margem, de sorriso no rosto. Sentiu-se uma onda de alívio percorrer os espectadores daquela cena quando a viram acenar-lhes, voltar costas e seguir o seu caminho, feliz.

10 de janeiro de 2011

Preconceito, intolerância, estupidez...

Excertos de alguns comentários publicados no site do jornal Sol a propósito da morte de Carlos Castro. Sem comentários, da minha parte...

- O jovem modelo era tao bicha como o outro e se andava com o Castro era por interesse. Um queria um penis vigoroso ou/e um rabinho redondinho, o outro queria andar a curtir sem trabalhar. Provavelmente a bichona mais nova cortou a pila à outra porque descobiru que esta lhe andava a pôr os palitos com outro...

- Este LIXO ANTI-NATURA que o PINÓCRATES tem promovido, lá diz o ditado "diz com quem andas..", devia ser combatido pela sociedade com leis mais duras e não defendido como fazem alguns do mesmo clube.

- Ainda formalizaram uma lei (PS-Cavaco) para o casamento desta canalha. Renato deve ter atuado em legitima defesa de abusos. Eu faria o mesmo. Cambada...

- Lutemos pelo rápido regresso do Renato a Portugal que há cá muitos como o CC à espera do mesmo tratamento.

- ... contas bem feitas, é menos um larila!

- Pese embora tratar-se de uma vida humana que nunca merece morrer desta maneira, penso que gente desta não faz falta à sociedade. Antes, é um mau exemplo para a juventude que merece ter outras referências e nunca estas, transformadas em vedetas pelo telelixo!

- O Carlos Castro foi um prevertido!!!coitado do Ricardo Seabra, um miúdo "empurrado" pelo velho para o mundo da prostituição e do deboche!Deve ter sido violado, sequestrado e abusado em Nova Iorque!!!! UM VELHO DE 65 ANOS A NAMORAR COM UM MENINO DE 20?????agora que venham os FDP desses VIPS com cara de kú, chorarem a morte do larilas perverso....esta gente é quase toda uma escumalha mórbida e desiquilibrada, que vivem à custa do atraso mental deste País e deste Povo!Ainda falam de "paixão" fulminante entre o velho de 65 anos e o menino de 20 anos?????MAS ESTA m**** É ADMISSIVEL????? COITADO DO MIÚDO!!!!OXALÁ O MENINO SE SAFE DESTA TRAGÉDIA PORCA E SUJA!!!

- Estou profundamente chocada pelo facto de ter sido um miúdo de 20 anos a ter tido a coragem de eliminar à face da terra esta PORCARIA a que ainda chamavam Carlos. Espécimes deste género, declarados porcos maricas, já deveriam ter sido eliminados pela sociedade. Coitado do miúdo!

- Ou será que é saudável assistir-se ao desfile deste tipo de «casais» (neste caso formado por um par de indivíduos, um com 60 e tal anos e um rapaz de 20!), como uma coisa perfeitamente normal, como se fosse “amor à primeira vista”, tipo Romeu e Julieta? Aonde chega a demência, Santo Deus, ao ponto dum “cumentador” ter-se referido a um casal, explicando que se tratava dum homem e duma mulher (como se um casal pudesse ser outra coisa) e outro a tecer loas à adopção por homossexuais, que como é sabido assumem práticas contra-natura, isto é anti-procriação, mas que mesmo assim ainda se dão ao descaramento de quererem fantasiar aos papás e mamãs, como se fosse do interesse duma criança “ser filha” de João Roto e Manuel Galinhas.

- Este é mais um dos exemplos com que se está a educar a sociedade de hoje, obrigas esquerdistas de ***@. Para alguns panascões e amigos de panascões, estas aberrações são todas boazinhas, incluindo as que morrem capadas! Que se fod@m todas!

- MENOS UM PANELEIRO

- Nada se perdeu e um pouco se ganhou. Um predador sexual a menos a fazer perigar a vida dos vossos filhos, e outro na pildra onde, e pelo menos durante uns tempos, também não ameaçará muito. Nem sei por que se comentam factos irrelevantes, como o são todos os que concernem a paneleiragem

- "Ó Renato, Se abra, minino, Se abra!" - ouvia o rapazinho, com uma certa frequência, não demasiada, que os 65 anos sempre pesam o seu bocado. E eis que chega o dia em que o Renato decide não Seabrir mais. Em vez disso, abre a navalha, extirpa a origem do "mal", corta ao de leve os pulsos e abala para o hospital mais próximo. Que por acaso não era o dos malucos. Fim do primeiro capítulo. Aguardam-se ansiosamente os seguintes, na imprensa côr-de-rosa (e não só).

- Já se sabe que quem dá, leva. E leva a pila cortada...serviço bem feito!

- A promoção acelarada pelo governo e pelo BE dos direitos "gay", em Portugal, já está a dar os seus frutos. A imagem que está a passar na imprensa mundial é uma vitória para o país. Objectivo alcançado que são as palavras mais ouvidas últimamente.

- Esta notícia é muito mais chocante e escandalosa pelo que implica, na relação de cama de um velho gay com um puto, do que na essência do homocídio!!! O carlos castro arriscou a vida no mundo da marginalidade do sexo gay...e aconteceu! Agora fica o povo português normalito à espera dos comentários e do circo do Funeral com as bichonas gays e pedófilas à beira de um ataque de nervos, todas excitadas e provocadoras, deste país miserável e pobre, em todos os sentidos, à beira mar plantado!

- Esta notícia toca na pedofilia homosexual! um senhor de 65 anos com um rapaz de 21???? Vamos aguardar o funeral mediatico do malogroso cronista e as fitas que se seguem de histeria colectiva da bichona Castelo Branco, do histérico Goucha, das pupus Lili caneças e cinha jardim....Jà se devem estar a preparar para o Circo do funeral com toda a pompa e circunstância nogenta !!!

- Há crise, há crise mas a paneleiragem vai passar fins de semana em Nova Yorque...

- foi morrer longe, coitado... tinha ficado por Lisboa e não o tinham capado...

- As "virtudes do mundo Gay"...

Preconceito, Fábrica de Letras

12 de dezembro de 2010

Momentos da minha vida

Penso e repenso e torno a pensar sem conseguir decidir. Procuro um acontecimento, um momento único de tal forma especial que me inspire. Impossível. Vendo bem, realisticamente falando, o momento mais importante da minha vida foi o meu nascimento. Sem esse acontecimento, nada mais se teria passado, a minha vida não seria minha, eu não existiria. Portanto, dita a lógica que eu fale desse dia. O único problema é que não me lembro de nada, sei apenas o que me foram contando ao longo dos anos: que me recusei a nascer no dia previsto, que fiquei a preguiçar no ventre da minha mãe durante mais duas semanas (devia estar mais quentinho, digo eu, já que era Outono), que fiz de tudo para nascer no dia de anos da minha mãe e, assim, estragar-lhe o dia - ou a noite, que eu nasci de madrugada - e que o meu pai foi o único que estava em condições de festejar. O meu pai, aliás, agradeceu a feliz coincidência, já que para datas tem memória de peixinho de aquário e, assim, nunca mais se esqueceu do dia de anos da minha mãe. Como se vê, eu tinha tudo controlado mesmo antes de nascer.

Objectos, pessoas, sítios e acontecimentos, Fábrica de Letras

5 de novembro de 2010

Invisível

Nem sei por onde começar - e não me respondam "pelo início", já sei que é por aí que devia começar. O problema é que nem sei qual é o início... Bom, suponho que podia começar pelo início de tudo, mas o Big Bang já foi há uns milhões de anos valentes e talvez os dinossauros e a era glaciar não tenham nada a ver com esta história. Ou então pelo dia em que nasci, para mim foi o início de tudo, antes disso nem mundo havia. Mas a verdade é que desde esse dia também já passaram muitos anos, mais do que os que gostaria de contar, e provavelmente as minhas aventuras para começar a andar ou a falar não vêm ao caso. Nem sequer a escola primária onde me arrastei durante mais anos do que devia, as primeiras amizades que entretanto perdi e nem dos nomes me recordo, ou as quedas da bicicleta, mesmo com rodinhas de apoio - desastrado e desequilibrado, como se vê, em mais do que um sentido.

Mas como dizia, nada disto importa para o caso. Vendo bem, nem sei o que importa... A primeira relação amorosa? Talvez. A primeira séria, pelo menos, se bem que para mim todas eram sérias, achava sempre que aquela era a definitiva, era com esta que ia casar e viver feliz para sempre, desde a primeira, aos 15 anos. Bom, deveria antes ter dito a primeira desilusão amorosa, claro está. Foi de facto nessa altura que descobri que era invisível. Quando ela me olhava e não me via, quando falava de mim como se eu não estivesse presente, quando me tocava sem me sentir, quando tomava decisões sem se lembrar de mim e quando decidiu pôr fim àquela relação por já nem se lembrar que estávamos juntos. Este padrão repetiu-se em quase todas as relações amorosas seguintes - não que tenham sido muitas, mas ainda assim foram algumas. Parece que de início sou apenas transparente, notam-se ainda alguns contornos, mas com o tempo a minha condição piora e deixam de me ver de todo.

Depois houve também o emprego que arranjei com a cunha do meu padrinho, não tenho problema nenhum em assumir - sou transparente até nisto. Enfiaram-me numa sala sem janelas, com um computador e vários armários de arquivo, e deixaram-me estar para ali à minha vontade, sem me incomodarem. Só estranhei quando, meses mais tarde, apareceu outra pessoa para fazer o mesmo trabalho que eu... Nunca hei-de esquecer o ar de espanto na cara do chefe quando deu comigo ali, o ar atrapalhado a tentar explicar a situação ao novo funcionário, sem saber muito bem o que dizer, até porque mal me viam! "Estou novamente invisível", pensei.

Já vos disse que casei? Claro que não, que disparate. Pois é, mas casei mesmo, numa cerimónia linda toda organizada pela minha mulher. Se bem que desconfio que o padre nem percebeu muito bem com quem estava a casar aquela mulher, de vez em quando fazia um esforço notório para me ver, franzia o sobrolho e voltava a cabeça na minha direcção. Depois desse dia, tornei-me ainda mais invisível, pelo menos cá em casa. A minha mulher põe, dispõe, faz, decide e nem me vê. Os meus filhos, tenho dois, fazem o mesmo. Desde que se tornaram adultos, principalmente, agem como se eu nem existisse. De transparente a invisível a inexistente, suponho que seja a evolução natural da minha condição.

Pergunto-me como será quando morrer. Imagino o velório, o caixão aberto sem nenhum corpo lá dentro que se veja, toda a família e amigos a olharem, desorientados, a sofrer, a chorar... Porquê? Por quem? E na lápide as palavras “Aqui jaz um homem que nunca ninguém viu".

É esta a história da minha condição: condenado de nascença a passar pela vida sem ser visto. Mesmo vocês que me lêem, não me vêem aqui, à vossa frente, enquanto escrevo estas linhas. Estou cansado, mas nada posso fazer a não ser continuar o meu caminho até que alguém me veja, se conseguir...

Transparência, Fábrica de Letras.

4 de outubro de 2010

Lembras-te?

- Cheira a chuva.
- Cheira a quê?
- A chuva.
- Mas a que cheira a chuva? A chuva é água, não tem cheiro...
- Não digas disparates! Claro que a chuva tem cheiro.
- Eu nunca senti o cheiro da chuva. Sinto o toque da chuva, as gotas a caírem-me na cabeça, e até já lhe senti o sabor, mas o cheiro nunca.
- O sabor da chuva?
- Sim. Quando chove, abro a boca e deito a língua de fora para apanhar as gotas que caem.
- E consegues apanhá-las?
- Claro que sim! Fecho os olhos, inclino a cabeça para trás, abro a boca e espero.
- Deves ficar com um ar de doida...
- E a mim que me importa? Sabe-me bem, sinto-me bem assim. Gosto do sabor da água fria da chuva. Mata-me a sede.
- Mata-te a sede? Mas não deves conseguir apanhar mais de umas poucas gotas...
- Não se trata de quantidade, mas de qualidade.
- Qualidade? Agora queres convencer-me de que a água da chuva é melhor do que a outra?
- Nada disso. Não sei se é melhor ou pior, nunca me informei sobre o assunto. Mas o prazer que sinto com aquela meia-dúzia de gotas de água é incomparável. Naquele instante, por uns segundos, sou novamente criança. Não tenho preocupações, nem obrigações, nem prisões... Sou feliz.
- E agora não és feliz?
- Sou, claro. Não tenho motivos para não ser. Mas não tanto como quando sinto o sabor da chuva.
- ...
- Não dizes nada?
- Não sei que te responda...
- É assim tão estranho gostar de beber a chuva?
- Não sei. Eu prefiro sentir-lhe o cheiro.
- E ele a dar-lhe... Qual cheiro?
- O cheiro da terra molhada pelas primeiras chuvas...
- Sabes que não passa do cheiro das bactérias em contacto com a água?
- Sei. Nem por isso deixa de ser bom. Mas não é só esse cheiro.
- Não é?
- Não. É o cheiro da renovação, é o cheiro do amor, é o cheiro da vida a recomeçar.
- Não quererás dizer a acabar?
- Claro que não! Com a chuva recomeça o ciclo da vida.
- Seja como for, agora não está a chover. Como podes dizer que cheira a chuva?
- Sinto o cheiro da chuva a chegar.
- Ah! Agora também és meteorologista?
- Não brinques, estou a falar a sério. Sinto no ar um aroma especial, que nem sei definir...
- Mas sabes que é aroma de chuva?
- Sei.
- Como podes ter a certeza?
- Porque é o cheiro que senti quando te beijei a primeira vez. Estava a chover, lembras-te?

O Cheiro da Chuva, Fábrica de Letras

20 de setembro de 2010

Nada e coisa nenhuma

Apetece-me escrever, mas não sei o quê. Olho para o ecrã e não me vem nada à ideia. É a metafórica folha em branco do escritor, que tanto o faz desesperar, não que me considere escritora, atenção, nada disso. Conheço bem as minhas limitações e nunca me passaria pela cabeça comparar-me a um escritor. Excepto talvez na acepção mais literal de “aquele que escreve”. Nesse sentido, sim, sou escritora. Ou seria, se conseguisse escrever alguma coisa. Mas não consigo. Olho para o ecrã, pouso as mãos no teclado - que é feito das canetas? Já ninguém escreve à mão... Também nunca tive uma caligrafia bonita, pelo que talvez seja melhor assim. Mas dizia: olho para a folha em branco no ecrã e, com as mãos no teclado, procuro as palavras que não encontro, o assunto, qualquer assunto, e só consigo pensar em disparates, idiotices, anedotas que até nem devem ter piada nenhuma, mas que me fazem rir sozinha - estarei doida? É possível. Doida por doida, ao menos que o seja oficialmente, de papel passado, sempre dava para justificar determinadas atitudes que me apetece tomar mas não posso, porque dizem que sou normal. Sabem lá! Se imaginassem o que me passa pela cabeça… No mínimo, internavam-me na hora, isolavam-me num quarto almofadado, trancavam a porta e deitavam a chave fora, ao rio ou ao mar, para nunca mais a encontrarem.

Gostava de conseguir escrever só porque sim, quando quero. Há pessoas assim (acho que também já fui assim), que sem pensar deitam cá para fora tudo o que lhes vai na cabeça, capazes de discorrer durante páginas seguidas sobre qualquer assunto, desde a plantação das batatas à teoria mais recente da física quântica. Podem não perceber nada do assunto, os conhecimentos que têm podem advir do cabeçalho da notícia que acabaram de ler, provavelmente nem deram atenção à notícia toda, basta-lhes só o título para logo ali formarem uma opinião e terem assunto para, pelo menos, umas quinhentas palavras. A qualidade ou não do produto final não vem agora ao caso. A qualidade dos meus produtos finais, provavelmente, também deixa muito a desejar, em comparação com os de outros seres mais dotados para a escrita. Se bem que, não é para me gabar, mas parece-me que de vez em quando consigo escrever qualquer coisa de jeito. Não será uma obra-prima, pois não, que eu não vim aqui inventar a roda nem descobrir o fogo, mas é uma obra minha, e isso já é mais do que muita gente pode dizer. Boa ou má, de qualquer forma, são conceitos subjectivos. Quem define o que é bom ou mau? Camões é bom? Dizem que sim, mas os estudantes do ensino secundário acham que não. Margarida Rebelo Pinto é boa (refiro-me à sua escrita, claro, que do resto julgarão outros)? Dizem os críticos que a leram que não, mas as vendas dos seus livros apontam no sentido contrário. E então? Acreditamos nos críticos, académicos, (em princípio) conhecedores do que falam, se não levarmos à letra a velha história de "quem sabe faz, quem não sabe critica", ou seguimos a opinião do povo, inculto na sua maioria, praticamente analfabeto até, que isto de saber ler tem muito que se lhe diga e não é só juntar as letrinhas e perceber que b+a=ba, mas que sabe do que gosta e por isso compra? Mas estamos a falar do mesmo povo que lê a revista Maria e o jornal O Crime e acredita em tudo o que lá vem escrito, que idolatra o Tony Carreira e que não vai ao teatro porque é caro mas não perde um jogo de futebol no estádio...

Podia, talvez, escrever sobre o tempo ou sobre o último filme que vi. Calhou ser o Salt, com a Angelina Jolie, mais um filme-chiclete, mastiga e deita fora, sem demora, já cantavam os outros e com razão, com uma tal confusão entre espiões americanos e russos e estes sãos os bons mas afinal já não são e daí a dez minutos já são outra vez e aquele que era mau afinal é a vítima e a coisa é tão confusa que termina da única forma que conseguiram, mesmo, mesmo a cheirar a sequela para ver se arranjam um final decente para a história.

Ou então podia dedicar umas linhas à última guerra blogoesférica de que me apercebi, que estas coisas passam-me todas ao lado, felizmente. Alguém teve a infeliz ideia de fazer um post a perguntar qualquer coisa como "qual o blog que mais odeiam?" e, pasme-se!, ouve centenas de respostas, cada uma menos fundamentada do que a anterior, odeio porque sim, pronto, é o meu direito, sem razão, simplesmente porque não gosto do que este ou aquele escreve e mais nada, não que eu seja melhor ou pior, mas odeio mesmo e acabou a conversa. E foi tanto o veneno destilado naquela caixa de comentários que fiquei a pensar: se um destes tem o azar de morder a língua, morre envenenado. Apeteceu-me apenas perguntar, se não gostam por que raio continuam a ler?, que eu quando não gosto de alguma coisa não volto lá, é tão simples e cansa muito menos, mas isto sou eu que, como já disse, sou doida e só estou aqui a fazer tempo até chegarem os senhores da bata branca para me levarem.

Também podia comentar a actualidade, hoje em dia qualquer um é comentador e ainda para mais na Internet, é largar postas de pescada a torto e a direito que toda a gente pode e deve ter opinião. São os arguidos do caso Casa Pia que agora já são os culpados do caso Casa Pia, excepto o Carlos Cruz que, por maioria de razão do povinho que adorava o 1, 2, 3 e a Bota Botilde, continua hoje e sempre inocente, ou pelo menos não foi só ele, os outros também lá estavam, que isto de ser condenado sozinho não tem piada nenhuma. São os franceses a expulsar os romenos e os búlgaros, perdão, é o Sarkozy a expulsar os ciganos, assim é que é, mais o nosso adorado Cherne a dar-lhe na cabeça, vá lá, haja alguma coisa que o homem faz que se pode dizer que até nem foi mal feita. Mas como acho que não tenho nada de novo a acrescentar às milhares de linhas que já foram escritas sobre estes assuntos, calo-me.

Claro, podia sempre falar de desgostos de amor, que toda a gente tem, se tiver sorte, porque é como dizia o outro "It's better to have loved and lost than never to have loved at all", mas o mais certo era sair um relambório de tal forma deprimente que ninguém teria paciência para aqui voltar, provavelmente nem eu. Ou das histórias da minha infância, dos dias de Verão passados na rua, com os amigos que terão para sempre um lugar especial no meu coração, apesar de todos termos seguido vidas muito diferentes e a amizade acabar por se perder, ou dos outros que fui encontrando ao longo da vida, uns desapareceram, outros ficaram, outros ainda reapareceram e é tão bom, tão bom, reencontrar estas pessoas, e as histórias que vivemos juntos, tantas histórias que poderia contar, ainda que ao fazê-lo corresse o risco de me internarem mais depressa. A minha vida não dava um filme, não tenho ilusões, sei que é apenas mais uma e que há gente com vidas muito mais interessantes do que a minha, com aventura e tragédia e tudo o mais, mas é a minha vida e só por isso é muito mais importante do que todas as outras, até porque é a única que ainda consigo, de vez em quando, controlar.

Outra hipótese seria entrar no domínio da ficção. Escrever uma história policial, cheia de mistério, daquelas com reviravoltas inesperadas capazes de deixar o leitor de boca aberta, com vítimas ingénuas e criminosos diabólicos, piores do que os da série Criminal Minds, de que não perco um único episódio, gosto tanto daquilo que me assusta pensar que algumas daquelas coisas podem ser reais. Ou uma história de amor, um amor impossível, claro, são as únicas histórias de amor que interessam, a luta dos apaixonados pelo amor que os une, contra tudo e contra todos - está mais que visto, bem sei, Shakespeare escreveu a primeira, a última e a definitiva, a tragédia de Romeu que se mata por pensar que Julieta morreu, Julieta que acorda e se suicida ao ver Romeu morto... é impossível fazer melhor, ninguém o fez até agora e também não tenho pretensões disso, credo!, como disse no início: conheço bem as minhas limitações.

Vendo bem, parece que ideias até não me faltam, a imaginação é fértil e não tem limites. Falta talvez a vontade de me alongar sobre os assuntos, ou a coragem de pôr tudo isto no papel, ainda que virtual.

E assim se escreve um texto sobre nada, a falar de coisa nenhuma.

Tema Livre, Fábrica de Letras

11 de setembro de 2010

O dia em que o meu mundo mudou

O despertador tocou à hora marcada, acordando-me de uma noite mal dormida. Estava na hora. Como um zombie, arrastei-me pela casa, terminando as tarefas que ainda tinha de fazer antes de sair. Uma hora depois, tinha as malas à porta. Olhei uma última vez para trás, respirei fundo, saí e fechei a porta, mal conseguindo conter as lágrimas. Desci no elevador e entrei no carro que havia de me levar ao aeroporto. Pelo caminho, ia pensando na decisão que tomara uns meses antes. Não tinha agora a certeza de ser a mais correcta. Partir assim, à aventura, largar tudo, deixar para trás a família, os amigos, a cidade, o rio e o mar… Para quê? E repetia para mim mesma que era em prol de um futuro melhor, que nada seria como antes e tudo se resolveria. Que um dia teria a certeza que tudo valera a pena.

Vários anos passados, continuo a repetir: um dia terei a certeza que tudo valeu a pena. Apesar das lágrimas, apesar da tristeza, apesar da distância. Um dia...

Tema Livre, Fábrica de Letras

4 de agosto de 2010

Insatisfação

Abri as asas e voei. Subi em linha recta até às nuvens, depois virei à direita e planei paralela ao solo. Lá em baixo, a cidade. Os prédios enormes, as casas, as ruas, os carros, as árvores (poucas, muito poucas) e as pessoas. Visto aqui de cima, tudo é tão pequeno, insignificante. Fico assim uns minutos, a observar a vida frenética. Oiço os sons da vida a passar normalmente, observo as pessoas apressadas, a correr de um lado para o outro, aquele condutor a discutir com o outro, a esbracejar, furioso, ainda tem um ataque cardíaco antes do tempo, o rosto vermelho de raiva, as veias do pescoço a latejar. E admiro-me de conseguir ver tantos pormenores a esta distância. Mas não estou longe, afinal. Sem me aperceber, desci quase até ao nível do solo, estou a pairar pouco acima dos tejadilhos dos carros parados em filas intermináveis de trânsito.

Volto a subir, desta vez rodopiando até atingir a altitude certa, acima das nuvens, fecho os olhos e sinto o vento no cabelo e o sol a aquecer-me o rosto. Cansei-me da cidade. Decido seguir viagem ao longo do rio até chegar ao mar. A praia quase deserta a esta hora, estão a chegar os madrugadores, avós com netos, principalmente, carregados de chapéus de sol, cestas de verga e geleiras, toalhas de praia ao ombro, baldes de plástico, pás e ancinhos... Também estes falam alto, as crianças aos guinchos, a fazer birra logo de manhã, a avó a gritar para se calarem, o avô a ralhar com a avó para deixar o neto em paz que é uma criança e tem de se divertir e logo ali começa uma discussão que há-de durar até à noite. Aproximo-me mais, fito nos olhos a criança que se cala subitamente, subo novamente tão depressa como desci, os avós voltam-se sem perceber o que se passou, mas aliviados por ter acabado a gritaria.

Sigo o meu caminho e atravesso o mar. Vejo barcos de pesca, depois veleiros, por fim cargueiros e navios de cruzeiro. Vejo baleias a saltar e tubarões a caçar, vejo focas e leões marinhos e vejo gelo, muito gelo. Está frio, por isso decido dar meia-volta e seguir noutra direcção. Volto a entrar em terra, atravesso campos, passo por rios, vales, montanhas, aldeias, vilas, cidades, países. Ali a estátua da Liberdade, daquele lado a Torre Eiffel, lá ao fundo o casario branco das ilhas gregas, deste lado o deserto, acolá a selva africana mesmo juntinha à muralha da China. Vejo tigres, leões, pinguins, cangurus, macacos, pássaros de todas as cores acompanham-me por onde vou. E as pessoas, afinal, que são iguais em todo o mundo.

Vi tudo o que havia para ver. Dei a volta ao mundo inteiro e percebi que já não há nada de novo, nada de interessante, nada de estimulante. Aterrei novamente em casa por alguns minutos. Olho em redor e o que vejo? Fotografias das pessoas que foram importantes na minha vida, mas já nenhuma existe. Objectos acumulados ao longo de uma vida inteira e que a certa altura significavam tudo. Sorri ao perceber finalmente que nada daquilo era importante, não passavam de objectos, como era possível ter pensado que não conseguia viver sem tudo isto?

E de sorriso rasgado no rosto voltei a levantar voo, subi a direito, passei as nuvens, passei o sol, e continuei a minha viagem pelo espaço à procura de um novo mundo.

Uma longa viagem, Fábrica de Letras

3 de julho de 2010

Inocência perdida

- Dispara, rapaz! - Exortava o avô, enquanto lhe metia à força a arma de pressão de ar nos braços fracos e frágeis de criança.

Miguel olhava, assustado, a arma, o avô, as inocentes latas de cerveja vazias alinhadas em cima do muro, à espera de morrer com um tiro seu. Não queria disparar. E se acertasse nos pássaros que passavam por ali no exacto momento em que o fazia? Tinha medo das armas, o simples som dos disparos dos caçadores, lá longe no meio do mato, assustava-o. Tremia e lutava por conter as lágrimas, não queria dar parte de fraco perante o avô, homem do campo, à antiga, que nunca conseguiria compreendê-lo.

- Um homem não tem medo! Um homem pega na arma e dispara. De que é que estás à espera, rapaz?

Mal conseguia segurar a arma que parecia pesar uma tonelada. Mas não sabia como sair daquela situação e acabou por encostar a coronha ao ombro. Pesadíssima, aquela arma. Fechou o olho esquerdo e espreitou pela mira da arma.

- Isso, agora apontas para uma lata e carregas no gatilho. Vá lá ver, não custa nada. Faz-te homem, rapaz!

Miguel cedeu e assim fez: apontou para uma lata e fechou os olhos, enquanto pensava "É melhor acabar com isto de uma vez". Contrariando os seus instintos, os seus medos e tudo aquilo em que acreditava, disparou. Fez um esforço sobre-humano para não saltar ao ouvir o tiro. Ainda assim, encolheu-se e fez um esgar de susto que o avô não deixou passar:

- Então, assustaste-te? É só um tirinho, não faz mal a ninguém. Olha, até acertaste na lata! Nada mal, para primeira vez. Agora tens de continuar a treinar.

Arregalou os olhos em pânico. Não queria continuar a treinar! Só tinha tentado uma vez para fazer a vontade ao avô, porque não sabia como o contrariar. Se o pai não conseguia contrariá-lo, como o faria ele, apenas uma criança? Naquele momento, odiava a sua vida. Odiava a arma que lhe cansava o braço, odiava as latas de cerveja perfiladas no muro a desafiá-lo, odiava o pai por nunca o defender, odiava o avô por o obrigar a usar uma arma. E principalmente odiava-se a si próprio por não ter coragem de dizer não.

Sem saber porquê, Miguel recordava este episódio enquanto apontava a arma ao empregado da bomba de gasolina, segundos antes de disparar.

Disparou, Fábrica de Letras