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17 de fevereiro de 2011

Futebol e outros espectáculos

Eu não sou grande adepta (nem pequena, aliás) do futebol. Em toda a minha vida vi dois jogos ao vivo (um da selecção nacional contra o Liechtenstein nos tempos da universidade e o outro este Verão do clube do periquito contra uns ingleses). Mas imagino que ir ao estádio ver um jogo seja mais ou menos como ir ao teatro (com as devidas e reconhecidas diferenças de nível intelectual dos participantes). Ou a um concerto, vá, talvez as semelhanças sejam maiores, afinal até já fui a concertos em estádios de futebol. Comparações idiotas à parte, o que quero dizer é que quem vai assistir a um espectáculo ao vivo, fá-lo para viver a experiência em primeira mão, para vibrar de emoção... Enfim, basicamente, e falo por mim, numa situação dessas ficamos de tal forma envolvidos no que nos rodeia que esquecemos o resto. Acho, aliás, que é essa uma das funções dos espectáculos ao vivo, alienarem-nos da realidade. Mas adiante. Por isso, estranho quando acontecem situações como a de hoje (e já vi acontecer noutras ocasiões) durante o jogo do clube do periquito contra os alemães. Sempre que acontecia alguma coisa, fosse um golo ou um jogador com um ataque de caspa nas unhas, lá apareciam actualizações de estados do Facebook, enviadas directamente dos telemóveis, quais Jorges Perestrelos da Internet. Mas então um gajo que é gajo vai ver um jogo da bola ao vivo e depois está preocupado em comunicar aos outros o que aconteceu? Então não devia estar entretido a ver o jogo, a chorar quando os outros marcam, a pular quando os dele ganham, a insultar o árbitro? Um dia destes, ainda vamos ver no Facebook coisas como "Julieta desmaiou", "Romeu suicidou-se", "Os bailarinos do La Féria são mesmo bons"... É que por muita destreza que se tenha nos polegares, sempre tem de se olhar para o telemóvel enquanto se escreve. E eu, quando pago bilhete para ver um espectáculo, não gosto de perder nem um segundo.

7 de outubro de 2010

Dois segundos

Dois segundos de distracção são o suficiente. Dois segundos em que a atenção se desvia do importante para o acessório, em que os olhos são atraídos por um qualquer movimento e, inconscientemente, aí se concentram. Dois segundos, não mais. Nesse período de tempo, aparentemente curto, tudo pode acontecer.

A criança, dos seus dois anos, talvez, caracóis loiros, olhos azuis, chupeta na boca, peluche na mão, linda de morrer, na ingenuidade e inocência naturais da idade, seguiu quem pensou ser a mãe. Aos seus olhos, os adultos parecem todos iguais e no meio da multidão é tão fácil confundi-los. A mulher que a criança seguiu estava vestida como a mãe, com uns jeans e umas sabrinas nos pés - os únicos elementos que a menina conseguia ver por estarem ao nível dos seus olhos. Mas não era a mãe. Era eu.

Apercebi-me de que ela me seguia e me agarrava as calças quando estava já à porta da loja, pronta para sair. Olhei para trás e vi a mãe, de vinte e tal anos, lá ao fundo, distraída com qualquer objecto numa prateleira. Nem notara que a filha tinha saído dali. A menina olhava-me, com a incompreensão estampada no rosto, os olhos grandes esbugalhados e o peluche bem agarrado e encostado ao peito, sem perceber de que forma a mãe se tinha transformado tanto. Calmamente, expliquei-lhe que tinha de voltar para trás e ir ter com a mãe. Esboçou um sorriso, voltou costas e começou a andar na direcção da mãe e, quando estava quase a chegar ao pé dela, esta abriu os braços para a receber, dando-se finalmente conta de que a filha se tinha afastado.

Não falei com ela, limitei-me a sair da loja depois de ver que a menina estava entregue à família, mas fiquei com a sensação de que aquela mãe não teve noção de como esteve perto de perder a filha, possivelmente para sempre. Fosse eu uma raptora e a esta hora estaria mais uma família destroçada, desesperada, a polícia em alvoroço, e aquela criança sabe-se lá em que estado.

Foram dois segundos. Não mais.

22 de setembro de 2010

Uma coisa sem importância nenhuma

Habituei-me há muitos anos a ter a televisão ligada no Telejornal à hora do jantar - mau gosto, bem sei, que a maior parte das notícias tiram o apetite a qualquer um e eu nem sequer faço dieta, desse ponto de vista até poderia ser útil. Adiante. Mas na última semana, para poder ver o Telejornal, tenho de ligar o aparelho na RTP África, porque os outros canais generalistas e de notícias (entre outros) continuam de férias lá no satélite onde a minha parabólica se recusa a ir buscá-los. Pois bem, ontem, antes do Telejornal que dá em simultâneo com a RTP (a normal, a da Alameda das Linhas de Torres ou lá de onde transmitem agora aquela coisa), passava um noticiário de África. Fiquei a saber que agora em Cabo Verde é possível fazer consultas de cardiologia pediátrica e fetal por telemedicina com o Hospital Pediátrico de Coimbra. Óptima notícia, sem dúvida, porque evita deslocações, ganha-se em tempo, etc. (a notícia completa está aqui). A certa altura na reportagem, mostram uma dessas consultas a decorrer. Um médico em Coimbra, em frente a um monitor, observa o coração de uma criança de 6 anos e diz qualquer coisa como "esta menina tem aqui um canal XPTO (lenga-lenga científica que ninguém entende) que tem de ser laqueado". Tudo bem. E logo de seguida, com o ar mais natural do mundo: "Diz aí à mãe que está aí ao lado que isto é uma coisa sem importância nenhuma". Pois, deve ser. Para o médico. A mãe é que é capaz de não achar…

Se quiserem, podem ver o vídeo aqui, mais ou menos aos 15 minutos de emissão.

28 de agosto de 2010

No restaurante

No fim da refeição
Empregado: Desejam café?
Cliente convencido que é engraçado: Tem cevada?
Empregado (com voz de quem acha a pergunta idiota mas não pode dizer nada porque está a falar com um cliente): Não...
Cliente cada vez mais convencido que é engraçado: Então era uma imperial!

24 de agosto de 2010

À beira da piscina II

E para além do que descrevi no post anterior, também se via disto:

À beira da piscina

Uma jovem espanhola, de vinte e poucos anos, arranja as unhas. Primeiro usa o corta-unhas, depois a lima e, por fim, deve ter usado o verniz. Faz sentido, já que ela passava o dia inteiro ali estendida, portanto não tinha outro sítio onde fazer este tipo de coisas. Vim-me embora e ela ainda lá ficou, pelo que não assisti à sessão de depilação com bandas de cera que certamente deve ter ocorrido uns dias depois...

Quem poderia ter usufruído dessa sessão de depilação, se não tivesse ido embora mais cedo, era uma senhora alemã, mãe de 2 filhos adolescentes, com pêlos nas axilas que lhe chegavam ao cotovelo. Pronto, exagero, mas havia por lá homens com menos pilosidade corporal do que ela. E teimava em usar vestidos de alças todos os dias, a toda a hora.

E não posso deixar de referir uma família polaca (enfim, da Europa de leste, pelo menos). Mãe e filha comportavam-se quais estrelas de Hollywood, de saltos altos à beira da piscina, aparecendo todos os dias com uma indumentária diferente, inclusivamente mudando de roupa a meio da manhã, e sempre, sempre, muito produzidas. A indumentária nocturna então, era demasiado cómica para ser verdade! É possível que fossem famosas lá na terra delas, mas ali ninguém as conhecia de parte nenhuma. Já o pai/marido, que seguia sempre religiosamente pelo menos meio metro atrás delas e se deitava numa espreguiçadeira afastada, desempenhava o papel de criado obediente.

Depois havia ainda uma família portuguesa com um filho dos seus 3 anos que era igualzinho ao Harry Potter, só lhe faltava a varinha, uma avó idosa, de bengala, que mal se podia mexer, um filho adolescente sempre de t-shirt preta, um pai que fumava cachimbo e uma mãe sempre preocupada em reunir o máximo de espreguiçadeiras possível, mesmo que fossem apenas 5 pessoas. É verdade que cada um valia por dois, e não fossem as camas partir o melhor era juntar duas...

Ah, e também não posso esquecer o outro casal que reservava sempre as mesmas duas espreguiçadeiras estendendo um cobertor (sim, cobertor!) que tinha a foto de uma flor gigante. Não sei se se levantavam de madrugada para ir estender o belo do cobertor ou se o deixavam lá durante a noite, mas o certo é que estava constantemente estendido.

Além disto, o normal: pais que gritam com os filhos, hóspedes gordos que se atiram para a piscina, despejando-a, pessoas que participam em tudo quanto sejam actividades físicas nas férias mesmo que durante o resto do ano não levantem o traseiro do sofá, e crianças que choram, que riem, que correm, que molham toda a gente à sua passagem.

Ah, as férias...

14 de julho de 2010

A melhor condutora do mundo

Tenho uma colega que faz de tudo para evitar conduzir, embora tenha carta há uns 20 anos. Só pega no carro quando não pode deixar de o fazer, como para ir de casa para o trabalho e vice-versa. De resto, pendura-se sempre à boleia dos outros ou, quando não consegue, prefere ir a pé, se não for longe. Chega a dizer que não gosta de meter a marcha-atrás e, uma vez em que íamos na auto-estrada, nem sabia como meter a 5ª mudança, porque não estava habituada a usá-la. (Um pequeno parênteses para explicar que isto é verídico, não é invenção da minha fértil imaginação, eu estava lá e vi. Podem continuar a rir.) Logicamente, mesmo na auto-estrada só anda pela faixa da direita, para ultrapassar outro carro demora meia hora a pensar se faz, como faz, quando faz e, finalmente, desiste porque já não vale a pena, afinal saímos já ali na próxima. Mesmo a conduzir a direito, o pé está sempre no travão, a carregar a fundo no pedal, não vá o da frente parar e ela não ter tempo. As rotundas, como facilmente se imagina, são todas contornadas por fora, independentemente do tamanho e da saída que queira tomar. Num estacionamento coberto, dá voltas e voltas até encontrar um lugar que não esteja entre dois carros, porque já não consegue estacionar - e nem pensar em estacionar de traseira! Além do mais, tem uma atracção especial pelas colunas dos parques de estacionamento e há umas quantas onde já deixou a sua marca. Conduzir em Lisboa está fora de questão, que aquilo é tudo gente doida e sem civismo nenhum e só apitam por tudo e por nada e ela enerva-se e aí é que o caldo entorna de vez.

Pois bem, foi com esta colega que eu fui hoje almoçar. Ao contrário do habitual, não fomos no meu carro, mas no dela. A viagem dura, no máximo e parando no semáforo, cinco minutos. Foi o tempo suficiente para eu decidir que regressava a pé.

27 de junho de 2010

A trabalhar para o melanoma

Não vale a pena. As campanhas de sensibilização, a publicidade, os alertas, os avisos, os anúncios e tudo o resto que surge por altura do Verão não fazem qualquer efeito. Continua a haver muito boa gente, inclusivamente com crianças, que chega à praia depois do meio-dia, não usa protector solar (isso é coisa de meninos!), abusa dos bronzeadores, e deita-se a estorricar ao sol até ficar negra que nem um tição. Mesmo que já tenham um escaldão de fazer inveja à lagosta mais suada, insistem em comportar-se da mesma forma. E há ainda os banhistas-girassol, que vão virando a toalha na areia para acompanhar a posição do sol, de tal forma que a certa altura estão de cabeça para baixo, só para terem a certeza que não perdem nem um raiozinho ultravioleta.

Depois, quando surgem os problemas, ai coitado, o que havia de lhe acontecer, apanhou um cancro de pele (como quem apanha uma gripe, com certeza), nunca teve sorte nenhuma na vida, só desgraças! E agora o que vai ser dele? Agora? Agora, batatas! Tivesse pensado nisso antes!

16 de junho de 2010

Fenómeno do Mundial

Constato com alguma admiração um fenómeno cíclico que acontece durante as competições futebolísticas internacionais: subitamente, toda a gente é perita em bola. Assim de repente, vindo do nada, salta uma conversa sobre o jogo de Portugal com a Costa do Marfim, com críticas aos jogadores em geral e ao treinador em particular, cambada de meninos de coro que só querem é fama e passear lá por África. Que o Ronaldo não joga nada, que o Queirós isto e aquilo, que só defendem e não atacam, que assim não se marcam golos como é que querem ganhar alguma coisa…

E quem tem estas conversas? Pessoal que acompanha regularmente as competições nacionais e internacionais e vibra com os sucessos ou fracassos da sua equipa? Não. Nitidamente, são pessoas que não percebem nada do assunto, nem sequer sabem quantos jogadores tem cada equipa, falam por ouvir os outros falar e criticam porque está na moda e falar mal dos outros é tão bom e tão fácil. Não é que eu perceba muito mais, mas ao menos não ando por aí a deitar postas de pescada como se fosse o maior entendido no assunto que alguma vez existiu.

O que vale é que isto só dura um mês (diz que provavelmente, para Portugal só dura mais uma semana) e depois temos descanso até ao próximo campeonato.

4 de junho de 2010

Outra que precisa de um chazinho

Aqui no serviço, é habitual festejar o dia de Portugal com um cocktail oferecido pelo chefe máximo cá da casa. Mais ou menos duas semanas antes, recebemos o convite para a festarola, a que nos pedem que respondamos, embora sem indicar a data limite. Sendo uma característica tipicamente tuga esperar pela última hora para fazer seja o que for, normalmente uma das secretárias contacta-nos a perguntar se afinal vamos ou não. Até aqui, tudo normal. Só que este ano, a rapariga deve ter dormido mal, tinha as hormonas desreguladas, acordou com os pés de fora, ou o marido não lhe deu o que ela queria, sabe-se lá, e enviou-nos este simpático e, sobretudo, delicado texto por e-mail:
Caros Colegas,
Dadas as estatísticas das respostas ao convite para o "cocktail" do dia 10 de junho, suponho que não é suficientemente claro que espero resposta...
Assim para completar:
"r.s.f.f. até ao dia 4 de junho 2010".
Obrigada.
C.
Não dá vontade de a mandar logo para o outro lado? Escusado será dizer que ainda não respondi e que só o vou fazer 5 minutos antes de sair.

17 de maio de 2010

Deve ser segunda-feira...

Há por aí uma gentinha simplesmente insuportável. Que tem a mania de mandar palpites sobre tudo e mais alguma coisa, sem saber sequer do que se está a falar. Que gosta de se imiscuir nos assuntos dos outros e ainda fica ofendida quando lhe respondem de forma mais azeda. Que é picuinhas ao ponto de perder tempo com coisas supérfluas quando o tempo escasseia e o prazo final se aproxima a passos largos. Que ainda por cima não o faz só no seu tempo, mas precisa de companhia e portanto decide chatear meio mundo com as suas perguntas inúteis e fazer todos os que a rodeiam perderem também o seu precioso tempo. Que além do mais tem a mania que é polícia e gosta de controlar tudo o que os outros fazem, mesmo, ou principalmente, se não lhe disser respeito.

Não haverá maneira de enfiar esta gente numa nave espacial e enviá-la para a lua, só com bilhete de ida?
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