30 de agosto de 2010

Reality Check

Estar no serviço de urgências do hospital, perceber que está lá também um trabalhador da construção civil, que calhou ser chinês e não falar uma palavra de português, com a mão esmagada por uma empilhadora, ouvir médicos e enfermeiros a falar sobre o assunto como se nada fosse, embora preocupados, e a ligar para o cirurgião plástico de prevenção, assistir a um amigo ou conhecido do doente desesperado a fazer de tradutor para os serviços administrativos poderem preencher a ficha do doente, sem a qual nem sequer o podem tratar, ter a certeza de que se fosse um cidadão nacional a besta do funcionário administrativo não o trataria assim, perceber que por se tratar de um hospital privado o doente terá de avançar com um sinal de 3000 euros caso tenha de ficar internado, desconfiar que o coitado não terá essa quantia disponível e provavelmente nem seguro de saúde, visto que nem deve estar legalizado, e que por isso deve sair dali com a mão ligada e ser enviado para um hospital público, e ouvir de repente um enfermeiro dizer para um médico acabado de chegar:

- Doutor, quer ver uma ferida a sério?

Definitivamente, há muitas vidas piores do que a minha.

9 comentários:

Manuela disse...

Tulipa,´o nosso sistema de saúde está cada vez mais parecido com um argumento de um filme norte-americano, não te parece?

Tulipa Negra disse...

Manuela, infelizmente é mesmo isso que me parece. Mas por aqui, por enquanto, ainda se prestam os primeiros socorros antes de ver se o doente pode pagar...
Beijinhos

Rafeiro Perfumado disse...

Concordo com a Manuela, infelizmente o orçamento deste filme é mais de um filme etíope...

Beijocas!

Vício disse...

só falta esse hospital ter um balcão de pré-pagamento. talvez evitasse tanta confusão

Tulipa Negra disse...

Rafeiro, o orçamento do hospital é que não deve ser etíope, a julgar pelos preços que praticam.


Vício, esse deve ser o passo seguinte: obrigam o pessoal a pagar adiantado, não vá morrer entretanto...
Beijinhos

Anónimo disse...

Olá peço desculpa por "me intrometer" raramente comento, mas ao ler este post gostaria de contar o seguinte:
Há dias a minha mãe caiu e partiu o nariz. Levei-a ao Centro de Saude de Cascais.Chegamos por volta das 20:00 a seguir apareceu um Sr a queixar-se de muitas dores.Enquanto esperavamos dei conta que ntre os próprios médicos reinava um clima de guerra civil, porquê ainda estou para saber.
O Sr, pediu pelo amor de Deus que já não podia mais. Puseram-no numa maca encostada a uma parede.
Eram 01:30 da madrugada e eu saia daquele Centro sem que a minha mãe tivesse sido vista e muito menos medicada.
Antes de sairmos alguem ( um enfermeiro talvez)passou pela maca.
O Sr. (de quem nunca vou saber o nome) tinha falecido.
E posso dizer que abandonei o tal Centro "de saúde" no meio dos rugidos dos "médicos" de volta da maca aborrecidíssimos com o facto e a lançar as culpas entre si.
Até onde e até quando este desrespeito pela vida humana?

Mila

Tulipa Negra disse...

Mila, obrigada pela visita e pelo comentário. Infelizmente, essas histórias são cada vez mais frequentes. Parece que o pessoal médico está mais preocupado em tratar da sua vida e resolver os seus problemas do que em tratar dos doentes. É triste, mas é a realidade...
Beijinhos

Denise disse...

Isso e chegar ao Amadora-Sintra com o INEM, ter tido diversas hipoglicémias, ser chamada para a triagem, a criatura que me atende não saber escrever o nome da minha insulina e (desconfio) nem saber o que é A Diabetes Tipo I e porem-me uma fita verdinha... Mandar-me de volta para a sala de espera e ficar lá quase 3 horas, até que já na companhia da minha mãe (que na sala de urgências me esteve a fazer o trabalho dos enfermeiros...) me levanto, quase recuperada pergunto quantas pessoas tenho à frente e me dizem que mais duas dependendo da quantidade que ainda for chegar pq como tenho senha verde, tudo o que for mais que isso me passa à frente... Conclusão?! Fui avisar o senhor que me ia embora, disse-me que não podia e respondi-lhe: «Ai não?! Mas vou na mesma» e fui e estou aqui....

Enfim...!

Tulipa Negra disse...

Denise, cada vez me convenço mais que tive uma sorte danada! Eu só tinha uma crise alérgica, umas borbulhitas de nada, e deram-me logo uma pulseira amarela... Mas infelizmente é o que temos.