21 de novembro de 2010

Finalmente percebo

Pensava eu que os macarons eram assim uma espécie de bolacha recheada com mania das grandezas, a que nem sequer achava grande piada. Eram doces e pronto, comiam-se, mais nada. Até provar estes:


Admito: são uma delicia! Principalmente acompanhados por um chocolate quente, a um domingo à tarde, quando lá fora está um frio insuportável.

Felicidade

Adormecer nos teus braços, a cabeça no teu peito, ouvir o bater do teu coração embalar-me, sentir o teu cheiro e o calor do teu corpo. Sempre.

20 de novembro de 2010

19 de novembro de 2010

Apresento-vos o velho Sheldon...

...ou será o novo?



The Big Bang Theory. Nunca imaginei que a física pudesse ser tão divertida!

Para reflectir nos próximos dias

Deves desconfiar do cavalo quando estás atrás dele; do touro quando estás à frente; e dos políticos em todos os lados.

Paul Valéry

18 de novembro de 2010

Ainda se fosse uma caixa de pastéis de Belém...

Sou só eu que acho uma foleirada pegada os objectos em cortiça que o Estado Saloio Português vai oferecer às altas individualidades que vão participar na cimeira da NATO? Até já estou mesmo a ver o Obama a usar a bela da gravata de cortiça, ou a Hillary Clinton de mala de cortiça no braço enquanto vai ao supermercado. Quanto muito, pode ser que o cão, por patriotismo canino, não se recuse a usar a coleira...

Uma boa causa

Anjinhos de Natal

É certo que na época do Natal aparecem mil e uma campanhas de solidariedade, é certo que não podemos contribuir para todas. Mas também é certo que nesta altura as pessoas estão mais predispostas a dar, por muito pouco que seja. Por isso mesmo, o melhor é escolher uma ou duas causas e contribuir como pudermos. Descobri esta há uns dias e pareceu-me interessante. Primeiro, porque não me pedem dinheiro sabe-se lá para quê em troco de um boneco de feltro que acaba por ir parar ao fundo de um baú. Depois porque a oferta é feita directamente a uma criança específica e não a uma organização sem rosto que nunca temos a certeza de entregar o que demos com tanto carinho. E finalmente porque permite ajudar crianças desfavorecidas a terem um Natal um bocadinho melhor. Não devia ser só no Natal, devia ser o ano todo? Devia. Mas gosto de pensar que com a minha ajuda contribuo para que pelo menos um dia da vida destas crianças seja mais feliz. Segue-se a explicação por quem está a organizar tudo.

Os anjinhos são crianças desfavorecidas, às quais o Exército de Salvação, com a nossa participação e de colaboradores de muitas outras empresas, ajuda a ter um Natal mais alegre. As crianças mais carenciadas são seleccionadas pelo Exército de Salvação, que faz a pesquisa no terreno junto das famílias mais necessitadas.
Depois de seleccionados os nomes e idades das crianças são colocados num cartão com o pedido da prenda. O anjinho é o cartão onde vêm mencionados a idade e o presente da criança em causa: um brinquedo e um fato de treino para a idade. Todos os anjinhos correspondem a uma criança específica, por esse motivo em todos os presentes deve ser colocado o número correspondente à criança, este número vem mencionado no cartão-anjinho.

Quem quiser contribuir pode solicitar o número de anjinhos que pretende através do mail: fiosoltos@gmail.com e eu enviarei toda a informação do anjinho o mais rápido possível.

Estes pedidos devem ser feitos no máximo até dia 30 de Novembro e a entrega dos presentes será feita entre os dias 2 e 7 de Dezembro nas instalações da TVI, ao cuidado de Ana Almeida ou contactar-me para que eu possa indicar outro local ou mesmo ir levantar os presentes, nenhum anjinho ficará sem presente por motivos logísticos.

É muito importante que todos os presentes sejam entregues devidamente identificados com o número do anjinho.

Um grande OBRIGADA a todos os que acolherem esta acção.
Os Anjinhos no Facebook: LINK

A saga do Leste continua...

Um búlgaro pergunta-me como se pronuncia o nome de uma personalidade portuguesa porque precisa de o escrever no alfabeto cirílico. Apeteceu-me trocar os B pelos V, os R pelos G, não dizer os L e falar à moda de Bijeu [e posso dizer isto porque tenho família de lá]. Mas hoje estou bem-disposta.

17 de novembro de 2010

Apresento-vos o verdadeiro Gato Fedorento...

...na voz da grande Phoebe Buffay!



Friends. Ando com vontade de rever as 10 temporadas - pela quarta vez, se não estou em erro...

A propósito de nada # 2

Em tempos trabalhei no atendimento telefónico de uma operadora de telemóveis. Não via o público e o público não me via. Mas tínhamos de obedecer a um dress code. A regra básica era não usar calças de ganga, excepto à sexta-feira (sempre perguntei se à sexta não se trabalhava como nos outros dias, nunca me souberam responder). Os homens não eram obrigados a usar fato, mas eram encorajados a isso. Diziam que era por causa da imagem da empresa. Repito: não víamos ninguém, ninguém nos via (especialmente se tivermos em conta que trabalhávamos por turnos e muitas vezes entrávamos e saíamos das instalações durante a noite ou ao fim-de-semana).

Lembro-me de um colega, jovem e de cabelo comprido, que começou por apanhar o cabelo num rabo-de-cavalo até que acabou por cortá-lo, tal não era a pressão. Continuou a fazer o mesmo trabalho, da mesma forma que até aí. Mas provavelmente com a cabeça mais leve, sem o peso do cabelo...

16 de novembro de 2010

Pensamento da noite

As novas caras do livro

E abrir o Facebook pela manhã e encontrar isto:


E perceber que quem teve a ideia deu origem a um fenómeno que possivelmente nunca imaginou. E perceber que hoje em dia é tão fácil embarcar nas modas e aderir que nem carneirinhos. E perceber que também eu o fiz, não uma, mas duas vezes (quem me manda ter dupla personalidade?). E ver que de repente (quase) todas as publicações no livro das caras são de músicas antigas, desenhos animados antigos, genéricos de séries antigas, anúncios de televisão antigos... e quanto mais piroso, melhor. E perceber que o pessoal dos 30 para cima sofre de uma nostalgia crónica pela década de 80 do século passado. E perceber que se calhar é a melhor maneira de não pensar nos problemas e na crise. Afinal, na banda desenhada tudo é tão simples e acaba sempre bem...

Claro que depois há aqueles que são do contra, podemos ter a ideia mais genial do mundo que há-de sempre haver alguém para contrariar. E então? Qual é o problema de toda a gente mudar temporariamente a foto para um boneco qualquer do antigamente? Expliquem-me, se fazem favor, porque eu ainda não percebi.

Este ninguém engana!

Notícia no rádio, esta manhã

A polícia mandou parar um cidadão numa viatura por condução perigosa. Pediram-lhe os documentos, mas como o motorista não os tinha, acompanharam-no a casa onde encontraram um saco com uma determinada quantidade de marijuana, que prontamente confiscaram. Até aqui, tudo normal. Só que o génio ficou furioso e dizia que não podiam levar o que era dele porque não tinham mandato de busca. Não é preciso, explica-lhe a polícia (não me perguntem porquê, eu não percebo nada destas coisas de leis, mas suponho que o agente sabia do que estava a falar). E o indivíduo não acredita e insiste que no CSI Miami a polícia tem sempre de ter um mandato de busca e se eles dizem é porque é verdade.

Imagino o ataque de riso dos agentes da polícia depois de uma resposta destas…

15 de novembro de 2010

Declaro oficialmente aberta a época natalícia

Adoro a época do Natal, que começa agora oficialmente neste canto blogocoiso. Até lá, vão com certeza aparecer por aqui as musiquitas que todos adoramos (admitam que é verdade!), as estrelas, o Pai Natal, as renas, as luzes, os doces...

Começo com estas delícias que só aparecem nesta altura, infelizmente. Ou felizmente, conforme o ponto de vista. Eu era até capaz de propor estes bolinhos para um prémio qualquer...

[Anda por aí algum representante da marca que me leia? Aceito donativos em géneros!]


Estrangeiro e estranho # 5

Vá, todos juntos: Llan-vire...
Lembram-se do vulcão islandês do Verão passado? Sim, o Eyjafjallajokull, esse mesmo. E lembram-se de ninguém saber pronunciar o nome, nem sequer ter a certeza de como o escrever? Pois bem, tenho a informar-vos que há por esse mundo fora nomes muito piores.

Comecemos pelo País de Gales, onde há uma terra com o impressionante nome de

Llanfairpwllgwyngyllgogerychwyrndrobwillantysiliogogogoch

Parece que esta lengalenga significa "Igreja de Santa Maria junto ao bosque de castanheiros, perto do redemoinho rápido e da gruta vermelha da Igreja de São Tisílio". Pelo que vi na Internet, até deve ser um sítio bonito. Mas já estou a imaginar uma conversa do tipo "Sabes onde vou estas férias? A Llanfairpwllgwyngyll...coiso...". Por isso é que no Verão eles rumam todos para o Allgarve, é mais fácil de pronunciar.

E esta, quem consegue dizer?
Na Nova Zelândia, uma pequena colina situada na baía de Hawke foi baptizada com o singelo nome de

Taumatawhakatangihangakoauauotamateaturipukakapikimaungahoronukupokaiwhenuakitanatahu

que significa literalmente "O cume da colina onde Tamatea, o homem de joelhos grandes, o escalador de montanhas, o comedor de terra, o viajante, tocou flauta nasal para sua amada". Romântico, sem dúvida, principalmente se ele tiver comido a terra antes de tocar a flauta.

Mas o recorde é da Tailândia, cuja capital é conhecida como Banguecoque, embora seja apenas o nome da cidade abreviado. Tendo em conta que não se deixam espaços entre as palavras no tailandês escrito, o verdadeiro nome é o seguinte*:  

Krungthephphramahanakhonbowonratanakosinmahintharayuthayamahadilokphiphobnovpharadradchataniburiromudomsantisug

Isto tudo para dizer "Cidade dos anjos, grande cidade e residência do Buda de esmeralda, cidade invicta do deus Indra, grande capital do mundo ornada com nove preciosas gemas, onde abundam enormes Palácios Reais que se assemelham à morada celestial onde reina o Deus reencarnado, uma cidade oferecida por Indra e construída por Vishnukarm". Custava muito chamar-lhe só Krung e pronto? Mania de complicar...

No outro extremo, temos os sempre pragmáticos europeus do norte. Na Dinamarca, na Noruega e na Suécia existem três localidades com o nome de A. Assim, só uma letrinha e logo a primeira do alfabeto para terem a certeza que ninguém se esquece deles. Com Z não encontrei nenhuma, mas só Y existe uma em França e outra no Alasca.

Bom, convenhamos que também temos alguns nomes de localidades de difícil pronúncia pelos estrangeiros, como Freixo de Espada a Cinta, Malhada do Mendo Marques de Baixo (Arraiolos) ou Quiaios (Figueira da Foz) que consegue a proeza de ser a localidade portuguesa com mais vogais seguidas no nome. Isto para não falar de nomes que são, simplesmente, hilariantes (suponho que já toda a gente tenha ouvido falar do Cu de Judas, mas vejam aqui mais alguns exemplos). Agora o que eu gostava mesmo era de ouvir alguém pronunciar estes nomes...

*Segundo a Wikipedia, o nome é Mahanakhon Amon Rattanakosin Mahinthara Yuthaya Mahadilok Phop Noppharat Ratchathani Burirom Udomratchaniwet Mahasathan Amon Piman Awatan Sathit Sakkathattiya Witsanukam Prasit e consta no livro dos recordes do Guinness como o maior nome de cidade do mundo, com 152 letras.

Inspirado por The Meaning of Tingo and Other Extraordinary Words from Around the World, Adam Jacot de Boinod.
Expirado e respirado por Tulipa Negra.

14 de novembro de 2010

Os cinco sentidos da saudade


Sempre dá para enganar a saudade...

A Vera perguntou, a Malena também, depois foi o João e, finalmente, a Malena voltou à carga com o mesmo assunto: Saudade. O cheiro, o sabor, o som, o toque da saudade. Fui deixando comentários a uns e a outros, por ser um tema que me afecta de forma especial, talvez por estar longe, acredito que sim, mas não só: por ser portuguesa, e basta. E por saber que há por aí mais gente a quem as saudades batem, e forte, em alguns momentos, e que talvez não leiam a Vera, a Malena ou o João (fazem mal!), e também por querer guardar aqui, no meu canto, o que deixei nos cantos deles, aqui fica o que por lá disse, mas não só.

Olfacto

A saudade cheira bem, cheira a Lisboa... 

Cheira a Tejo; a mar; ao escape dos carros no Rossio; às bifanas afogadas em molho com mais de um mês na tasca; ao metropolitano (especialmente em hora de ponta); a castanhas assadas no carvão; a imperiais e caracóis; ao after-shave do meu pai; à naftalina do baú da minha avó; ao sabonete da minha mãe; aos perfumes dos amigos; ao bolo no forno; a pão quente; a pão com chouriço; a pastéis de Belém e travesseiros de Sintra. Cheira a sardinha assada e vinho tinto e às marchas populares na avenida, no Santo António.

Paladar

A saudade sabe a refresco de groselha e capilé; a arroz de grelos e iscas (duas coisas que odeio, mas o sabor é inesquecível); a bolachas comidas na cama ao domingo de manhã enquanto lia um livro; às caipirinhas e à sangria do jantar com os amigos; ao chocolate que a dona da mercearia me dava quando eu lá ia e me perguntava por que é que eu gostava dela (resposta pronta: porque me dás chocolates); aos gelados na praia; a feijoada e ao creme das bolas de Berlim; a pastilhas Gorila e a Flocos de Neve; ao leite com chocolate Ucal; a caramelos Peña comprados em Badajoz; ao teu beijo.

Audição

Soa aos discos do Marco Paulo com que a vizinha de cima fazia o favor de me acordar; aos gritos da mesma vizinha para acordar os filhos (como se calcula, odiava-a!); à voz da vizinha das traseiras a chamar pelo cão logo de manhã (Pilooooooto!); aos ruídos do rádio que não apanhava bem "aquela" estação da moda que eu queria ouvir; ao Quando o Telefone Toca; aos Parodiantes de Lisboa à hora do almoço; ao Pólo Norte, Pólo Sul e Polilon e às Meias CD ("com CD quem ganha é você"); ao Bacalhau da Maria que ouvi o dia inteiro na praxe da faculdade; à MTV o dia todo no bar da faculdade; às músicas dos concertos a que assisti; aos concertos da semana académica; à música insuportável durante a bênção das fitas no único ano em que tiveram a triste ideia de a fazer em Fátima (Viiiiiinde e louvai-o, viiiiiiinde e louvai-o, viiiiiiiiinde e louvai o Senhooooooor); ao pregão do vendedor de nougat na praia da Costa de Caparica ("É quatro ceeeeeem, quatro ceeeeeem!"); à campainha do carrinho dos gelados no Verão; às músicas no rádio enquanto estudava; à voz dos meus pais ao telefone; às vozes dos amigos que estão longe; ao zurrir do burro na casa onde passava férias em Monsanto (que não sendo a minha terra verdadeira, é o que tenho de mais parecido); à música do Indiana Jones; e, para não destoar, ao barulho dos motores do avião.

Tacto

Tem o toque do teu corpo no meu; do abraço apertado; da mão na testa quando estou doente; das mãos dadas e dos dedos entrelaçados; dos beijos no rosto; dos carinhos dos meus pais; da pele macia; o calor da lareira; a cadeira de palha desconfortável mas tão minha que ninguém se sentava ali quando eu estava; do vento nos cabelos; das picadas de mosquitos; da pedra da calçada; do pêlo do burro (sempre em Monsanto).

Visão

É a última curva do avião ao chegar a Lisboa, em direcção ao Cristo Rei, por cima da ponte 25 de Abril, o Tejo lá em baixo, a mata de Monsanto (esta em Lisboa, não a aldeia da Beira Baixa) do lado esquerdo (tento sempre ter lugar do lado esquerdo do avião só por estes últimos minutos de viagem), a ponte Vasco da Gama lá ao fundo, Sintra e Cascais à direita, e depois sobrevoar a cidade inteira e procurar reconhecer todos aqueles sítios lá do alto. E é o aeroporto e o avião do Zaire que lá está parado há anos a acumular pó. São os sorrisos sinceros nos rostos dos amigos, são as letras no ecrã quando conversamos. São os cabelos brancos da minha avó. São os pedregulhos da aldeia de Monsanto, a paisagem árida. É a praia e o campo, é o Gerês e o Algarve, é Portugal inteiro. É principalmente, e acima de tudo, Lisboa, o rosto dos meus pais e os dos amigos. É para isso que tenho uma estante cheia de álbuns de fotografias.

Sexto sentido

Saudade é a luz e o calor do sol, a cor e o cheiro do mar, a gargalhada da minha prima, o sabor a sal das lágrimas e o rosto dos que já não são.

13 de novembro de 2010

12 de novembro de 2010

Apresento-vos Basil Fawlty...

...e o incrível Manuel. Qué?




Fawlty Towers: outro clássico, este com o magnífico John Cleese.

A propósito de nada

Tive uma colega que aquecia as luvas no microondas de manhã, antes de sair de casa. E um dia lembrou-se de pôr um hambúrguer congelado na torradeira, para ser mais rápido. Correu mal…

11 de novembro de 2010

Aqui não acontece nada

Rick Kirkman & Jerry Scott, Baby Blues 26 - A Desordem Natural das Coisas

Apresento-vos o Dr. House...

...antes de estudar medicina.



Black Adder: provavelmente, uma das melhores séries cómicas de todos os tempos.

Publicidade aqui não, obrigada

Estava ontem a ver o programa “Condenados”, na SIC, por sinal bastante interessante, quando, sem mais nem menos e principalmente sem qualquer importância para a reportagem, a jornalista diz que ficou hospedada na Albergaria X e vai de mostrar a placa com o nome, a recepção, o quarto, tal e qual como se de um programa de turismo se tratasse. A certa altura, pensei até que teria havido um qualquer problema com a edição do programa e teriam misturado uma parte do “Boarding Pass” por engano. Mas não, falava-se de homicídio e adultério, não de monumentos e restaurantes. E nem sequer era num local recôndito do Portugal profundo, não. Estamos a falar da zona de Coruche, a menos de uma hora de Lisboa, pelo que a estadia no local até nem se justificava.

Depreendo, portanto, que a crise também já chegou às reportagens da televisão.

10 de novembro de 2010

Espécie em vias de extinção

Rick Kirkman & Jerry Scott, Baby Blues 26 - A Desordem Natural das Coisas

Efeitos do Outono

O frio, a chuva, o céu cinzento há cinco dias convidam a ficar por casa, aconchegada, embrulhada numa manta, sentada no sofá, um chá quente numa mão, o comando da televisão na outra, um filme romântico no ecrã, a melhor companhia do mundo ao lado.

Mas.

O trabalho, os prazos, as obrigações laborais, os poucos dias de férias que restam e fazem falta para aquela semana que já está programada há tempos, o sentido de responsabilidade, alguma dose de masoquismo, obrigam-me a arrastar-me até ao emprego, embrulhada num casaco, guarda-chuva numa mão, mala na outra, sentar-me numa cadeira dita ergonómica, um filme de terror no ecrã do computador, a pior companhia do mundo nos gabinetes vizinhos. E a repetir tudo amanhã.

9 de novembro de 2010

De repente

Vem não sei de onde, inesperadamente, e atinge-me em cheio como um murro no estômago ou uma onda, um tsunami que primeiro me leva para fora de pé, depois passa-me por cima da cabeça e quase me afoga. Luto para chegar à tona, mas a superfície está cada vez mais longe, a luz do túnel afasta-se como a fugir-me e quanto mais luto mais me canso e sufoco. Perco as forças. E não sei porquê.

Faz-me falta

Foto daqui
O Sol.

8 de novembro de 2010

Onde estás que não te vejo?

Este post do Rafeiro mais bem-cheiroso da blogosfera nacional (se não mundial), a propósito da problemática de dar indicações idiotas às pessoas, lembrou-me de quando eu trabalhava num sítio onde tínhamos um intercomunicador com visor para responder a quem tocava à campainha. Trabalhávamos num open space no último andar e na entrada não havia espaço para ter uma recepção, sendo que nos andares intermédios estavam outras empresas, pelo que convinha ter atenção a quem se deixava entrar nas instalações. Acontece que o aparelhómetro (e respectiva câmara, claro) ficava ligeiramente à direita da porta de entrada e, depois de tocar à campainha, as pessoas naturalmente chegavam-se à porta, não aparecendo no ecrã.

Ora a primeira secretária/recepcionista que tivemos não primava pela inteligência era um bocadinho limitada (a segunda também, mas isso não vem agora ao caso). De maneira que, de cada vez que alguém tocava à campainha, ouvíamos a rapariga literalmente aos gritos, com uma voz irritante e esganiçada:

“Chegue-se um bocadinho mais para trás, mais para tráááás. Mais para a esquerda, para a esqueeeeerda. Não, agora foi demais. Mais para a direeeeeeita!”

Até que um dia um colega, farto de a ouvir guinchar, responde do fundo da sala:

“Mais para ciiiima, que o gajo é anão!”

Definitivamente, é segunda-feira

A página de entrada do Internet Explorer mudou, durante o fim-de-semana, por vontade própria. Segue-se um telefonema para o Helpdesk, porque a porcaria da opção que serve para mudar a página de entrada está desactivada e só os génios do outro lado lhe podem mexer. Seja.

Como sempre, o telefonema é surreal. Só depois de lhe dizer quatro vezes que agora não tenho a página da Intranet mas sim uma página do MSN (e que não carreguei em lado nenhum a dizer que queria mudar a página de entrada) é que o “especialista” percebe qual é o problema. Manda-me reiniciar o computador e eu a lembrar-me da anedota dos três engenheiros dentro do carro, mas não podia dizer nada, não fosse ele ficar ofendido e, de vingança, cortar-me o acesso ao Blogger ou ao Facebook.

Dou-lhe autorização para o acesso remoto e ele vai de instalar uma coisa qualquer que não cheguei a perceber o que era porque, obviamente, assim que ele abriu o IE, lá estava a nossa página da Intranet toda lindinha, como se nada se tivesse passado. Avancemos, que o dia ainda está a começar.

Entretanto, chega o chefe que traz bolos para o pessoal.


Medo!!!

E isto foi só de manhã...

Estrangeiro e estranho # 4

O original não é fiel à tradução. (Jorge Borges)


E agora em Grego, vá!

Perdoem-me o preciosismo, mas este vídeo tão divertido na realidade mostra um intérprete (que para o caso também serve) e dos bons! Muitas vezes confundidos, intérprete e tradutor não são a mesma coisa. Para quem não saiba, a diferença básica é simples: um tradutor escreve; um intérprete fala. Agradeço ao João ter-me recordado este vídeo.

Todas as expressões de que tenho falado nesta rubrica são de difícil tradução. Principalmente, por representarem realidades que não existem necessariamente noutras línguas - ainda aqui hei-de colocar as muitas palavras que os Esquimós usam para neve. Uma dessas dificuldades de que os falantes nativos de português se orgulham é a palavra saudade. Não é que os outros povos não a sintam, naturalmente que sim. Mas provavelmente não lhe dão a mesma importância, pelo que não necessitam de uma palavra específica para designar esse sentimento. Parecendo que não, a saudade é mesmo qualquer coisa tipicamente Tuga - talvez mais do que os pastéis de nata e o bacalhau...

Mas não pensem que somos só nós a ter palavras que dão dores de cabeça a qualquer tradutor minimamente aplicado. Neste artigo (enviado pela Ventania) verificamos que a nossa saudade aparece apenas em 7º lugar, atrás de ilunga (tshiluba) - uma pessoa que está disposta a perdoar quaisquer maus-tratos pela primeira vez (à primeira todos caem), a tolerar o mesmo pela segunda vez (à segunda cai quem quer), mas nunca pela terceira vez (à terceira ninguém cai) - e de shlimazl (ídiche) - uma pessoa cronicamente azarada. Ainda assim, parece que a próxima é mais difícil  de traduzir do que a saudade, embora eu não consiga perceber porquê: pochemuchka (russo) - uma pessoa que faz perguntas demais. Tenho de apresentar umas quantas pessoas aos tipos que fazem estas listas...

Tal como a saudade, a maioria das palavras difíceis de traduzir representam realidades ou situações para as quais não temos uma expressão específica (em alguns casos, no entanto, até davam jeito). Ora digam lá se não queriam ter palavras para:

  • desviar-se da chuva movimentando-se depressa, como em havaiano: 'alo'alo kiki (e eu que pensava que no Havai estava sempre bom tempo!)
  • nadar só com as mãos, também em havaiano: honuhonu (deve ser parecido com nadar à cão, mas eu estava convencida que os havaianos sabiam nadar como ninguém... enfim, mas um mito desfeito.)
  • carregar coisas à cabeça sem as segurar com as mãos, na língua zarma da Nigéria: tallabe (alguém sabe de uma palavra para isto, já que no interior do nosso rectângulo ainda há quem leve bilhas e fardos de palha à cabeça num equilíbrio capaz de desafiar as leias da física?)
  • sentir o corpo preso por estar sentado na mesma posição durante muito tempo, em checo, diz-se: přesezený (será que passam assim tanto tempo sentados na mesma posição para precisarem de uma palavra específica para isto? Quer dizer... podem sempre levantar-se e esticar as pernas antes, digo eu!)

Ainda assim, pelo menos no meu caso, útil mesmo era uma palavra como teklak-tekluk (indonésio) que designa aquele movimento da cabeça a cambalear com sono. As actas das reuniões de trabalho seriam muito mais realistas!

Inspirado por The Meaning of Tingo and Other Extraordinary Words from Around the World, Adam Jacot de Boinod.
Expirado e respirado por Tulipa Negra.

7 de novembro de 2010

Disclaimer

A autora deste espaço não se responsabiliza pelas publicações deste fim-de-semana. Foi tudo culpa do mau tempo, da chuva, do frio, e das nuvens que a possuíram que nem poltergeists assanhados. (Convenhamos que ter as luzes de casa acesas desde manhã cedo é coisa para deixar qualquer um de rastos.) 
E depois era isto ou andar por aí a deprimir pelos cantos... 

Agora se me dão licença, vou ali ao youtube procurar mais umas coisinhas para o João, que parece que já está com saudades.

Domingo à tarde



E quando não há nada para fazer? Procuram-se estas coisas giras no youtube...

Domingo

Quando não há nada melhor que fazer a um sábado à noite

É impressão minha ou a Operação Triunfo bate os Ídolos para aí por uns 10 a 0? 

Nem sequer falo da qualidade dos concorrentes ou da simpatia do júri, mas em termos de espectáculo de entretenimento não tem comparação. Ao menos percebe-se onde a RTP gasta os euros do contribuintes.

6 de novembro de 2010

Durante as férias dos vampiros...

...tenho a companhia dos zombies. É preciso é gente que morre mas não se conforma com isso para animar o serão!


E pela amostra, vale a pena.

5 de novembro de 2010

Invisível

Nem sei por onde começar - e não me respondam "pelo início", já sei que é por aí que devia começar. O problema é que nem sei qual é o início... Bom, suponho que podia começar pelo início de tudo, mas o Big Bang já foi há uns milhões de anos valentes e talvez os dinossauros e a era glaciar não tenham nada a ver com esta história. Ou então pelo dia em que nasci, para mim foi o início de tudo, antes disso nem mundo havia. Mas a verdade é que desde esse dia também já passaram muitos anos, mais do que os que gostaria de contar, e provavelmente as minhas aventuras para começar a andar ou a falar não vêm ao caso. Nem sequer a escola primária onde me arrastei durante mais anos do que devia, as primeiras amizades que entretanto perdi e nem dos nomes me recordo, ou as quedas da bicicleta, mesmo com rodinhas de apoio - desastrado e desequilibrado, como se vê, em mais do que um sentido.

Mas como dizia, nada disto importa para o caso. Vendo bem, nem sei o que importa... A primeira relação amorosa? Talvez. A primeira séria, pelo menos, se bem que para mim todas eram sérias, achava sempre que aquela era a definitiva, era com esta que ia casar e viver feliz para sempre, desde a primeira, aos 15 anos. Bom, deveria antes ter dito a primeira desilusão amorosa, claro está. Foi de facto nessa altura que descobri que era invisível. Quando ela me olhava e não me via, quando falava de mim como se eu não estivesse presente, quando me tocava sem me sentir, quando tomava decisões sem se lembrar de mim e quando decidiu pôr fim àquela relação por já nem se lembrar que estávamos juntos. Este padrão repetiu-se em quase todas as relações amorosas seguintes - não que tenham sido muitas, mas ainda assim foram algumas. Parece que de início sou apenas transparente, notam-se ainda alguns contornos, mas com o tempo a minha condição piora e deixam de me ver de todo.

Depois houve também o emprego que arranjei com a cunha do meu padrinho, não tenho problema nenhum em assumir - sou transparente até nisto. Enfiaram-me numa sala sem janelas, com um computador e vários armários de arquivo, e deixaram-me estar para ali à minha vontade, sem me incomodarem. Só estranhei quando, meses mais tarde, apareceu outra pessoa para fazer o mesmo trabalho que eu... Nunca hei-de esquecer o ar de espanto na cara do chefe quando deu comigo ali, o ar atrapalhado a tentar explicar a situação ao novo funcionário, sem saber muito bem o que dizer, até porque mal me viam! "Estou novamente invisível", pensei.

Já vos disse que casei? Claro que não, que disparate. Pois é, mas casei mesmo, numa cerimónia linda toda organizada pela minha mulher. Se bem que desconfio que o padre nem percebeu muito bem com quem estava a casar aquela mulher, de vez em quando fazia um esforço notório para me ver, franzia o sobrolho e voltava a cabeça na minha direcção. Depois desse dia, tornei-me ainda mais invisível, pelo menos cá em casa. A minha mulher põe, dispõe, faz, decide e nem me vê. Os meus filhos, tenho dois, fazem o mesmo. Desde que se tornaram adultos, principalmente, agem como se eu nem existisse. De transparente a invisível a inexistente, suponho que seja a evolução natural da minha condição.

Pergunto-me como será quando morrer. Imagino o velório, o caixão aberto sem nenhum corpo lá dentro que se veja, toda a família e amigos a olharem, desorientados, a sofrer, a chorar... Porquê? Por quem? E na lápide as palavras “Aqui jaz um homem que nunca ninguém viu".

É esta a história da minha condição: condenado de nascença a passar pela vida sem ser visto. Mesmo vocês que me lêem, não me vêem aqui, à vossa frente, enquanto escrevo estas linhas. Estou cansado, mas nada posso fazer a não ser continuar o meu caminho até que alguém me veja, se conseguir...

Transparência, Fábrica de Letras.

Ah, o amor...

Duas notícias, aparentemente sem relação, acabam por se revelar muito semelhantes.

A primeira fala do regresso dos golfinhos roazes ao estuário do Sado. Pelos vistos, descobriram uma nova cria de um golfinho fêmea que tinha partido e agora voltou a casa. Estranho só mesmo o facto de terem chamado Mr. Hook a uma fêmea, é caso para perturbar a identidade de qualquer um. Mas na verdade trata-se de uma história de amor: a fêmea foi até ao oceano, encontrou um namorado (é o que lhe chamam na notícia), teve um filhote e regressou. Não me perguntem se o namoro acabou, se o malvado não quer assumir a paternidade do filho, se Mr. Hook é uma fêmea independente, não sei responder. Mas é uma história bonita.

Tal como é bonita a história dos 33 mineiros chilenos, aqueles que estiveram presos na mina durante 70 dias. Mas mais bonita ainda será essa mesma história contada num filme pornográfico… com argumento! Que mais há a dizer? O amor está no ar e nem sequer é Primavera.

Cores


Dr. Clay's crayons live in a special box of cardboard that says 120 on it, that's how many all different. They've got amazing names written small up the sides like Atomic Tangerine and Fuzzy Wuzzy and Inchworm and Outer Space that I never knew had a color, and Purple Mountain's Majesty and Razzmattazz and Unmellow Yellow and Wild Blue Yonder. Some are spelled wrong on purpose for a joke, like Mauvelous, that's not very funny I don't think. (...) There's even a white crayon, wouldn't that be invisible?
Emma Donoghue, Room

Prometo que é o último post relacionado com este livro, acaba aqui a publicidade gratuita, mas encontrei a imagem e lembrei-me desta passagem. É mesmo muito bom!

4 de novembro de 2010

E ainda hoje é quinta-feira...

Depois de econômico e de cotidianas, só me faltava mesmo a desconcentração para completar o dia. Isso e as picuinhices de quem não tem mais o que fazer a não ser embirrar com as coisas simples. Gentinha complicada…

Objectivo para hoje (quase) cumprido

Quase consegui matar de susto uma Polaca à entrada da casa de banho. Faltou o quase.

3 de novembro de 2010

Pensamento do dia

It's called mind over matter. If we don't mind, it doesn't matter.

Emma Donoghue, Room

No rádio

- Já de seguida, os És Especial, com "Deixas Saudade".

Identificaram? Pois. Era disto que ele falava:



E aprender os nomes dos cantores e das canções antes de os anunciar, não?

2 de novembro de 2010

Bom, bom...

...é não trabalhar no dia a seguir a um feriado que até calhou à segunda-feira.

Leituras

My favorite bit of Outside is the window. It's differente every time. A bird goes right by zoom, I don't know what it was. The shadows are all long again now, mine waves right across our room on the green wall. I watch God's face falling slow slow, even orangier and the clouds are all colors, then after there's streaks and dark coming up so bit-at-a-time I don't see it till it's done.

Há muito que um livro não me prendia como este, a ponto de, por várias vezes, ter de me obrigar a largá-lo por já passar das 2h da manhã.

Mais do que a história, é a forma como é contada. Jack é um menino que acaba de fazer 5 anos. Vive com a mãe num quarto pequeno, com uma clarabóia e uma porta trancada. Para ele, o Mundo é isto. Embora tenha uma televisão, sabe que tudo o que aí vê é fantasia, as únicas coisas reais são o que existe dentro do quarto. Jack descreve o que vê e o que sente com a inocência e incompreensão próprias de uma criança curiosa e inteligente. E é pela sua voz que vamos percebendo a história, os acontecimentos terríveis que o colocaram a ele e à mãe naquela situação, e toda a coragem necessária para sair dela.

Jack faz-nos olhar para o que nos rodeia de uma forma nova. O Mundo, visto pelos olhos de uma criança que viveu sempre fora dele, é um lugar simultaneamente maravilhoso e assustador.

Segundo o site oficial, a tradução portuguesa está em preparação. A não perder!

1 de novembro de 2010

Estrangeiro e estranho # 3

I see dead people.

Tendo em conta que ontem foi Halloween, hoje é dia de Todos-os-Santos e amanhã é dia dos fiéis defuntos (mais conhecido por dia de finados), vamos falar de fantasmas, aparições e companhia.

A crença de que depois de morrer há mais qualquer coisa está presente em quase todas as culturas e é expressa de várias formas em cada língua. Na Nicarágua (Ulwa), aparentemente acreditam que quando uma pessoa morre liberta um iwang wayaka, espírito invisível que faz barulho. Certo. Invisível até entendo, fazer barulho é que se dispensava porque nestas alturas os vivos precisam de descansar. Já no Nepal (Sherpa) usam a técnica hrendi thenok para contactar a alma de um morto, que pelos vistos não é barulhenta como na Nicarágua, caso contrário seria fácil contactá-la.

Os nossos amigos esquimós (Inuit) tentam a tarniqsuqtuq, a comunicação com um espírito que não consegue partir. E como é que eles sabem disso? Provavelmente, o espírito é barulhento e diz-lhes. Os persas, por seu lado, falam de raskh, ou seja, a transmigração da alma humana para uma árvore ou planta. Não é por nada, mas assim como assim preferia ser um passarito, sempre dava para viajar.

Mas o mundo do além é tema de muitos filmes de terror, sentimento também reflectido nas línguas. Os campeões neste campo são os indonésios. Vejam só estes três exemplos:

- wewe é o fantasma de uma mulher feia com seios descaídos (pois… cada um tem medo do que tem e nada a fazer);

- keblak é um galo fantasma que assusta as pessoas à noite com o barulho das suas asas (não conhecem a lenda do galo de Barcelos, com certeza, porque mais assustador do que o barulho das asas de um galo é um galo morto que desata a cantar);

- kuntilanak é um fantasma disfarçado de mulher bonita para seduzir os homens, que depois ficam horrorizados ao descobrir que, na verdade, ela tem um grande buraco nas costas (bem feita, ninguém os manda pensar com a cabeça errada e além disso é escolher entre o buraco nas costas desta e os seios descaídos da outra).

Para terminar, agora que se aproxima o Natal, nada melhor do que uma figura do gaélico escocês que, desconfio, deve ter influenciado em muito a ideia que temos do Pai Natal, mas ao contrário: bodach é o fantasma de um homem velho que desce pela chaminé para aterrorizar as crianças que se portaram mal. Pais que por aí andam, parece-me que deve ser mais eficaz do que simplesmente ameaçar que não levam prenda!

Inspirado por The Meaning of Tingo and Other Extraordinary Words from Around the World, Adam Jacot de Boinod.
Expirado e respirado por Tulipa Negra.

31 de outubro de 2010

Diz que hoje é Halloween

Cuidado!
 Elas andam aí...

30 de outubro de 2010

29 de outubro de 2010

A melhor prenda

Não é material. Não é um carro, uma casa, uma viagem a um lugar paradisíaco. Não é sequer um par de sapatos, aquele vestido ou uma jóia. A melhor prenda é poder passar o dia rodeada das pessoas de quem mais gosto no mundo. São as mensagens de todos os outros, que por estarem longe não podem estar comigo fisicamente. E, claro, é a surpresa de perceber que mesmo aqueles que mal "conheço", se dão ao trabalho de me deixar uma mensagem simpática.

28 de outubro de 2010

Oktoberfest

É hoje.

27 de outubro de 2010

Luxos

Almoçar em casa, uma refeição preparada pela mãe, na companhia dos pais e do marido, num dia de semana. E depois não trabalhar de tarde.

26 de outubro de 2010

Relatividade

urgente
adjectivo uniforme

1. que urge; que não admite delongas
2. iminente
3. indispensável

(Do lat. urgente-, «id.», part. pres. de urgére, «apertar; urgir»)

em http://www.infopedia.pt/


O que é urgente ou não? O que constitui uma urgência? E quem decide? O que para uns é urgente, indispensável, tem de ser resolvido de imediato, para outros pode esperar dias, semanas, anos, até. Tudo depende da perspectiva. Obviamente que o facto de outra pessoa precisar de usar a casa de banho para mim não é urgente, mas imagino que para a pessoa possa ser. Agora quem tem o direito de me dizer que aquilo que eu considero urgente não o é? Quem? A que propósito? Quem lhe deu essa autoridade? Como é que me respondem que agora não pode ser porque estão em greve, que se pode prolongar até 8 semanas (!!), portanto que ligue quando terminar a greve para resolver o assunto, porque de momento só tratam de urgências? COMO? E o meu assunto não é urgente porquê? Para mim é, e muito!

P**a que os p***u a todos.

25 de outubro de 2010

Estrangeiro e estranho # 2


Zezé: O gajo era romancionista.
Tóni: Arrumava carros? Toxico-independente?
Zezé: Romancionista! Escrevia poemas!

A comunicação é essencial entre as pessoas, mas por vezes é dificultada por vários factores. Algumas línguas têm expressões muito úteis que descrevem essas situações específicas. Na Indonésia, por exemplo, suponho que seja complicado conviver com quem sofre de latah, o hábito incontrolável de dizer coisas embaraçosas (não confundir com lata em português que significa, basicamente, descaramento). Além disso, começo a achar que os indonésios não devem ser muito educados, se têm uma palavra específica para quem interrompe sem pedir desculpa: nyelonong. Piores do que os indonésios, só os falantes das línguas Inuit (vulgo, Esquimós), que até têm uma palavra para quem nunca responde: akkisuitok.

Já na China, terra com tantos milhões de habitantes, é natural que alguns toquem alaúde a uma vaca (dui niu tanqin - parece que é no sentido de falar por cima de outra pessoa ou dirigir-se ao público errado). Mais estranho é que haja quem hesite e murmure sozinho (chenyin), mas imagino que com tanta gente à volta seja a única forma de conseguirem ouvir os próprios pensamentos.

Os turcos, por seu lado, têm a expressão catra patra que designa o acto de falar uma língua incorrectamente, como os nossos Tóni e Zéze ou alguém que está a aprender a língua. E quando estamos a falar uma língua que não conhecemos bem, temos tendência para, além de falar mais alto, responder sim a tudo, especialmente se não percebemos o que nos disseram. Chama-se a isso, em russo, dakat'.

Eu nunca estive nas Ilhas Cook, mas desconfio que por lá deve haver muita coscuvilhice entre os Maori. É a única explicação para a existência da palavra 'o'onitua, que significa falar mal de alguém na sua ausência. Na Jamaica, terra conhecida por ser bem mais descontraída tendo em conta vários produtos naturais que por lá usam e abusam, a mesma palavra em patois serve para coscuvilhice e anedotas ou canções e memórias nostálgicas da escola: labrish.

E como por esta semana a lição já vai longa, despeço-me na língua do vulcão que nos atazanou a vida este Verão:  

bless!

Inspirado por The Meaning of Tingo and Other Extraordinary Words from Around the World, Adam Jacot de Boinod.
Expirado e respirado por Tulipa Negra.

24 de outubro de 2010

23 de outubro de 2010

Pagar para poder... pagar!

Contribuinte: Gostava de comprar um carro.
Estado: Muito bem. Faça o favor de escolher.
Contribuinte: Já escolhi. Tenho que pagar alguma coisa?
Estado: Sim. Imposto sobre Automóveis (ISV) e Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA).
Contribuinte: Ah... Só isso.
Estado: E uma coisinha para o pôr a circular: o selo.
Contribuinte: Ah!..
Estado: E mais uma coisinha na gasolina necessária para que o carro efectivamente circule. O ISP.
Contribuinte: Mas... sem gasolina eu não circulo.
Estado: Eu sei.
Contribuinte: Mas eu já pago para circular...
Estado: Claro!
Contribuinte: Então... vai cobrar-me pelo valor da gasolina?
Estado: Também. Mas isso é o IVA. O ISP é uma coisa diferente.
Contribuinte: Diferente?!
Estado: Muito. O ISP é porque a gasolina existe.
Contribuinte: Porque existe?!
Estado: Há muitos milhões de anos os dinossauros e o carvão fizeram petróleo. E você paga.
Contribuinte: ... Só isso?
Estado: Só. Mas não julgue que pode deixar o carro assim como quer.
Contribuinte: Como assim?!
Estado: Tem que pagar para o estacionar.
Contribuinte: Para o estacionar?
Estado: Exacto.
Contribuinte: Portanto, pago para andar e pago para estar parado?
Estado: Não. Se quiser mesmo andar com o carro precisa de pagar seguro.
Contribuinte: Então, pago para circular, pago para poder circular e pago por estar parado.
Estado: Sim. Nós não estamos aqui para enganar ninguém. O carro é novo?
Contribuinte: Novo?
Estado: É que se não for novo tem que pagar para vermos se ele está em condições de andar por aí.
Contribuinte: Pago para você ver se pode cobrar?
Estado: Claro. Acha que isso é de borla? Só há mais uma coisinha...
Contribuinte: Mais uma coisinha?
Estado: Para circular em auto-estradas...
Contribuinte: Mas... mas eu já pago imposto de circulação.
Estado: Pois. Mas esta é uma circulação diferente.
Contribuinte: Diferente?
Estado: Sim. Muito diferente. É só para quem quiser.
Contribuinte: Só mais isso?
Estado: Sim. Só mais isso.
Contribuinte: E acabou?
Estado: Sim. Depois de pagar os 25 euros, acabou.
Contribuinte: Quais 25 euros?!
Estado: Os 25 euros que tem de pagar para andar nas auto-estradas.
Contribuinte: Mas não disse que as auto-estradas eram só para quem quisesse?
Estado: Sim. Mas todos pagam os 25 euros.
Contribuinte: Quais 25 euros?
Estado: Os 25 euros é quanto custa o chip.
Contribuinte: ... Custa o quê?
Estado: Pagar o chip. Para poder pagar.
Contribuinte: Não percebi...
Estado: Sim. Pagar custa 25 euros.
Contribuinte: Pagar custa 25 euros?
Estado: Sim. Paga 25 euros para pagar.
Contribuinte: Mas eu não vou circular nas auto-estradas.
Estado: Imagine que um dia quer? Tem que pagar.
Contribuinte: Tenho que pagar para pagar porque um dia posso querer?
Estado: Exactamente. Você paga para pagar o que um dia pode querer.
Contribuinte: E se eu não quiser?
Estado: Paga multa!

recebido por e-mail

22 de outubro de 2010

Ansiedade

Imagino situações, diálogos, pessoas, tenho o mau hábito de fantasiar que aquilo que imagino pode ser real. Mas como nem sempre o que imagino é agradável, dou por mim a viver estados de ansiedade que muitas vezes não são justificados. Ouvi dizer que não vale a pena sofrer por antecipação. É verdade que não, mas eu não consigo fazê-lo de outra forma – e invejo quem consegue, confesso. Nessas alturas preciso de ficar sozinha, sem ter de falar com ninguém, até porque tudo o que me possam dizer serve apenas de motivo de discussão, de veículo para descarregar a tensão acumulada. Chego ao fim do dia cansada mas, olhando para trás, não consigo vislumbrar nada de útil que tenha feito. A concentração voou para longe, não há nada que me prenda a atenção e a ansiedade prolonga-se pela noite dentro e tira-me o sono, acorda-me de madrugada e não me deixa dormir mais. Enquanto aquilo que imagino não se resolve, não tem uma conclusão, seja positiva ou negativa, não descanso. Tenho medo de ter esperança. Porque sempre que a tenho, sempre que acredito que desta vez é que vai ser, que tudo vai correr bem... tenho desilusões. Daquelas grandes, de me deixar de rastos durante dias e dias, sem conseguir fazer nada, pensar em nada... Não consigo ser paciente e ter calma e cabeça fria, ou morna sequer, e preciso de resolver tudo, logo. Irrito-me por tudo e por nada, sem motivo, com a pessoa errada, porque quando quero alguma coisa quero mesmo, com força, com todas as minhas forças, que às vezes são tão poucas! Talvez deseje o impossível.

E as lágrimas caem pelo rosto, incontroláveis.

21 de outubro de 2010

Já começa

8h da manhã
Temperatura dentro da garagem: 15,5ºC
Temperatura exterior: 1ºC

7h da manhã, no Funchal (menos uma hora do que aqui)
Temperatura exterior: 21ºC

...
...

Falta muito para o Verão?

20 de outubro de 2010

3 minutos e 15 segundos

É o tempo que separa a possibilidade de felicidade extrema da mais profunda tristeza.

Medos

Do futuro. Do que poderá ser, do que poderá não ser, do desconhecido, sobretudo. Medo de que os desejos não se concretizem, mas principalmente do contrário. Porque não se realizando os desejos, é fácil viver. Estou habituada a viver sendo os desejos apenas isso mesmo, desejos. E um não é sempre certo, pode até doer mas é confortável. Ao fim de um tempo, volto à vidinha de sempre e, afinal, nada mudou, tudo continua igual. O contrário é assustador. A possibilidade de se concretizar um desejo aterroriza-me. Porque se o desejo o é realmente, é de tal forma ansiado que tenho até medo do que virá a seguir. Be careful what you wish for, dizem os americanos com razão. Concretizando-se esse desejo, especificamente, nada será como antes. Tudo mudará, de um dia para o outro. Espero sempre que mude para melhor, porque para pior antes assim, mas a verdade é que não o sei. Não tenho a certeza. E assusta-me. Muito.

19 de outubro de 2010

Hoje

Não sai nada de jeito desta cabeça. Ou antes, há qualquer coisa que não me sai da cabeça e me impede de fazer seja o que for. Assim sendo, mais vale ficar quietinha no meu canto.
Pode ser que amanhã seja melhor.

18 de outubro de 2010

Estrangeiro e estranho # 1

 You had me at "Hello".

Nada como começar pelo início. Uma das palavras mais úteis e das primeiras a aprender numa língua estrangeira é, claro está, a forma de cumprimento. Um "olá" ou "bom dia" bastam, em português. Mas nem sempre é assim.

Se forem ao Senegal não se admirem de ouvir um simples aa (Diola), mas na Rússia podem ser surpreendidos por um khaumykhyghyz (Bashkir). Já na Serra Leoa, podem pensar que finalmente encontraram o Wally quando ouvirem wali-wali, mas é apanas uma forma de cumprimento. E no Canadá não voltou a moda do iô-iô, que se saiba, mas é natural ser saudado com um yoyo (tribos Kwakiutl). Já no Sri Lanka a economia de palavras ditou que se use ayubowan para bom dia, boa tarde, boa noite e adeus. Nada que os italianos não façam também com ciao, que tanto significa olá como adeus. É tão simples. Para quê complicar?

Para começar, chega. E agora vou-me embora sem dizer a ninguém onde vou, como fazem os índigenas Wagiman da Austrália:
Allahaismarladik

Inspirado por The Meaning of Tingo and Other Extraordinary Words from Around the World, Adam Jacot de Boinod.
Expirado e respirado por Tulipa Negra.

Porque hoje é segunda-feira

"Quem aprende uma nova língua, adquire uma alma nova"
Juan Ramón Jiménez

A partir de hoje, e enquanto me apetecer, a segunda-feira passa a ser dia de aprender coisas novas, em estrangeiro. Esqueçam o inglês ou o francês, a não ser que o caso seja tão excepcional que se justifique. Estou a falar de línguas estrangeiras e estranhas, daquelas que pouca gente fala, pelo menos em Portugal. E a que propósito vem isto? Ora bem, primeiro porque a segunda-feira é sempre "aquele" dia e, portanto, é preciso tentar animar o tasco. Segundo, porque me lembrei que tenho ali na estante um livro delicioso precisamente sobre este assunto. Assim, e sem qualquer tipo de pudor, decidi inspirar-me e publicar aqui algumas dessas palavras. Aproveitem e aprendam qualquer coisinha.

17 de outubro de 2010

Mais do mesmo... mais chato!

***Spolier alert! ***

"The secret is how to die."
I'd say, the secret is how to create an interesting story...

Acabei finalmente de ler The Lost Symbol (ou o Código Da Vinci 3, como é conhecido cá por casa). Tinha lido as outras duas aventuras de Robert Langdon e confesso que tinha gostado. Não sendo obras-primas da literatura, cumprem aquilo a que se propõem: entreter o leitor, criar um mistério que o prende até às últimas linhas, cheio de reviravoltas inesperadas... Enfim, dentro do género em que se encaixam, considerei na altura que eram até bons livros. Lembro-me de ficar agarrada à história e de não conseguir pousar os livros enquanto não os terminei. As polémicas com o Vaticano foram, a meu ver, acessórios que em muito contribuíram para aumentar as vendas - assim uma espécie de estratégia de marketing bem montada.

Por tudo isto, esperava que este novo episódio fosse, pelo menos, tão interessante como os dois anteriores. Pois não é. A história até começa bem, o mistério está bem construído, mas rapidamente se torna tão maçador que a certa altura dei por mim a pensar se ainda faltaria muito para acabar. As soluções dos códigos que vão surgindo, e que nos outros livros eram dos aspectos mais intrigantes e engraçados de resolver, são em alguns casos de tal forma óbvias que não sei como Robert Langdon, supostamente especialista na coisa, demora quase vinte páginas para as perceber. Isto para já não falar de algumas soluções que o autor encontrou para outras situações. Refiro-me, por exemplo, à morte de uma personagem importante que mais tarde reaparece, assim uma espécie de Lázaro ressuscitado. A explicação até pode ter bases científicas, não faço ideia porque não me informei sobre isso, agora que é rebuscada, disso não tenho dúvidas.

Já não me lembrava de um livro do género policial/mistério que me aborrecesse tanto, ao ponto de ser quase um sacrifício terminar de o ler. Decepcionante, é o adjectivo que procurava. Espero que o filme seja mais interessante...

16 de outubro de 2010

15 de outubro de 2010

Problemas com o PC? Envia-me um e-mail!

Ora diz que o serviço de Helpdesk aqui da tasca agora se chama Service Desk. À partida, parece-me um nome até bastante mais adequado, tendo em conta que ajudar, de facto, pouco ajudavam. Pode ser que sirvam, vamos lá ver. A acompanhar a mudança de designação, veio também um novo número de telefone e um novo endereço de e-mail. Até aqui, tudo normal. O que o povinho começou a estranhar foi que, de cada vez que lhes telefonava por ter um problema qualquer com o PC (e não são tão poucas vezes quanto isso, infelizmente) atendia uma gravação pedindo para deixar mensagem que eles depois ligavam.

Pois bem, recebemos hoje as novas instruções sobre como comunicar com estes senhores. Agora, quando precisarmos de ajuda informática, temos de lhes enviar um e-mail. Aí está uma boa forma de garantir que diminuem o número de incidentes.

14 de outubro de 2010

Finalmente, a verdade!

Tirado daqui.

Afinal há milagres

Mas são os homens que os fazem.


Foto tirada do Sapo

Venha o filme de Hollywood!

13 de outubro de 2010

The SMS that made my day

Estou a atravessar o frio implacável para correr para o calor dos teus braços.

12 de outubro de 2010

Imagens de Outono





Afinal, nem tudo é mau por aqui...

11 de outubro de 2010

Alucinações

Encontro-me numa praia deserta, paradisíaca. O sol alto aquece-me a pele, o mar azul-turquesa ao fundo confunde-se com o céu no horizonte. As palmeiras proporcionam-me a sombra necessária. Ao meu lado, uma mesa onde está pousado um copo alto com uma bebida colorida enfeitado com um pedaço de ananás e um chapelinho de papel. Estou de férias, penso. Fecho os olhos e sorrio, feliz.

Inesperadamente, ao som do mar sobrepõe-se um ruído muito forte, um estrondo que se prolonga durante alguns segundos. Abro os olhos e vejo um clarão ao longe, em tons amarelos e vermelhos, uma chama que atinge a altura de vários arranha-céus. Sinto uma onda de choque que me atira ao chão de pedra e faz estremecer tudo à minha volta. Já não estou na praia e não percebo o que se passa. Levanto-me e começo a andar na direcção da luz, agora azulada, desviando-me de outras pessoas e dos carros que travam a fundo e buzinam, num súbito caos.

Consigo finalmente aproximar-me e vejo que a luz diminuiu de intensidade e de tamanho. Sem saber como, chego muito perto e estou afinal em casa, a olhar para dentro do forno cuja luz está acesa e onde vejo um bolo a cozer. Toca uma campainha, indicando que o bolo está pronto. Abro o forno, tiro a forma sem usar pegas nem qualquer espécie de protecção, mas não me queimo, e olho incrédula para as minhas mãos, imaculadas.

Não sei onde pus a forma, mas as minhas mãos, agora vazias, parecem-me gigantes. Sou tão pequenina! Tenho apenas cinco anos, estou na rua a brincar com outras crianças da minha idade. A minha avó chama-me, à janela: são horas de jantar. Olho e vejo-a sorrir.

Subo apressada as escadas do prédio onde moro e entro numa sala que não reconheço. Paredes e chão em metal, uma luz fria proveniente das lâmpadas fluorescentes do tecto alto, macas de hospital encostadas às paredes e, ao fundo, uma mesa enorme cheia de instrumentos cirúrgicos. Sou novamente adulta e estou assustada. Abre-se uma porta que até aí não tinha visto, na parede do lado direito. Oiço uma voz gritar, enérgica "Goooooood Morning, Vietnaaaaaam!" ao mesmo tempo que entra na sala o E.T. com um vestido de menina e um chapéu enfeitado com frutas e flores.

Sinto um cheiro intenso a pinho. Olho em volta. Estou no meio de um pinhal imenso, árvores de copas gigantes, a caruma pica-me os pés descalços. Oiço música a tocar mas não identifico de onde vem. Resolvo seguir o urso que me acena e sorri, mostrando-me um pote de mel enquanto se afasta na direcção de uma clareira. Quatro músicos tocam uma melodia alegre. Ao aproximar-me, vejo que não são humanos: um tigre, um elefante, um golfinho e o urso. Acho estranho encontrar ali um golfinho, que se oferece para me dar boleia assim que terminar o espectáculo, falando numa língua que não conheço, mas compreendo.

Aceito. Levantamos voo quase de imediato, uma hospedeira oferece-me uma lata de feijão, um copo de água e um livro. Começo a ler as páginas em branco, mas percebo a história que me envolve de uma forma pouco habitual. Deitada na minha cama, tapada com o edredão porque é Inverno e está frio, viro as páginas enquanto como bolachas de chocolate e carrego no acelerador.

A estrada está deserta, conduzo um carro que não é meu e onde sigo sem companhia. Acelero cada vez mais, atinjo uma velocidade que me parece irreal, deveria estar a voar! Oiço a sirene do carro da polícia que me persegue, não conseguindo contudo acompanhar-me. Ao meu lado, no lugar do morto, o Calimero, de casca de ovo na cabeça, queixa-se continuamente. Perco a paciência, abro a porta e empurro-o para fora com o carro em andamento. Oiço apenas um grito cada vez mais afastado. Buzino em resposta. Volto a buzinar, uma e outra vez, e mais outra e ainda outra. Estou a ficar com dores de cabeça mas não paro de buzinar.

Abro os olhos. Encontro-me numa praia deserta, paradisíaca…

9 de outubro de 2010

8 de outubro de 2010

O banco de jardim

(Fotografia de FJPR em Olhares.com)

A meio da subida, na berma da estrada, há um banco de jardim (ainda se chamará banco de jardim não estando num jardim?). Vi-o hoje pela primeira vez, nunca antes tinha reparado nele apesar de ali passar todos os dias, duas vezes por dia. Nunca lá vi ninguém sentado, também. Suponho que é possível que alguém se lá sente, de outra forma não passa de um banco de jardim na berma da estrada, sem qualquer utilidade. E se não tem utilidade, para quê existir? Um objecto tem uma utilidade definida, foi criado com um propósito e quando não o serve, quando deixa de nos servir, torna-se inútil, portanto supérfluo, e logo deixa de ter razão de existir.

Sempre achei os bancos de jardim tristes, quando vazios. Como se estivessem incompletos sem alguém lá sentado, como se lhes faltasse uma parte da sua essência. Como se o velho que ali descansa os ossos por uns minutos antes de continuar o seu caminho vagaroso ou o casal de namorados que se beija apaixonadamente lhe conferissem toda a razão da sua existência. Servir. É para isso que existem os bancos de jardim. Para proporcionar uns minutos de descanso à sombra das árvores num dia quente de Verão, para dar dois dedos de conversa com um amigo, para ler um livro, para esperar alguém que teima em chegar sempre atrasado.

Tal como as pessoas que vamos encontrando ao longo da vida. Também elas têm um propósito, uma razão de existir, que é diferente para cada um. Aquela pessoa, por exemplo, que para mim não passa de um conhecido com quem troco uns cumprimentos por obrigação mais do que por prazer, para alguém será certamente muito mais importante: pai, marido, irmão, filho… Certas pessoas têm uma utilidade limitada no tempo, uma espécie de prazo de validade. Entram na nossa vida no momento certo, cumprem determinada função essencial, ajudam-nos a crescer e a evoluir - mesmo aquelas de quem não gostamos ou que nos fazem mal. E quando deixam de nos servir, quando já não nos fazem falta, quando começam a apodrecer, desaparecem. Simplesmente. E é assim que deve ser. Sempre.

Por mais que os bancos de jardim pareçam tristes quando estão vazios.

7 de outubro de 2010

Dois segundos

Dois segundos de distracção são o suficiente. Dois segundos em que a atenção se desvia do importante para o acessório, em que os olhos são atraídos por um qualquer movimento e, inconscientemente, aí se concentram. Dois segundos, não mais. Nesse período de tempo, aparentemente curto, tudo pode acontecer.

A criança, dos seus dois anos, talvez, caracóis loiros, olhos azuis, chupeta na boca, peluche na mão, linda de morrer, na ingenuidade e inocência naturais da idade, seguiu quem pensou ser a mãe. Aos seus olhos, os adultos parecem todos iguais e no meio da multidão é tão fácil confundi-los. A mulher que a criança seguiu estava vestida como a mãe, com uns jeans e umas sabrinas nos pés - os únicos elementos que a menina conseguia ver por estarem ao nível dos seus olhos. Mas não era a mãe. Era eu.

Apercebi-me de que ela me seguia e me agarrava as calças quando estava já à porta da loja, pronta para sair. Olhei para trás e vi a mãe, de vinte e tal anos, lá ao fundo, distraída com qualquer objecto numa prateleira. Nem notara que a filha tinha saído dali. A menina olhava-me, com a incompreensão estampada no rosto, os olhos grandes esbugalhados e o peluche bem agarrado e encostado ao peito, sem perceber de que forma a mãe se tinha transformado tanto. Calmamente, expliquei-lhe que tinha de voltar para trás e ir ter com a mãe. Esboçou um sorriso, voltou costas e começou a andar na direcção da mãe e, quando estava quase a chegar ao pé dela, esta abriu os braços para a receber, dando-se finalmente conta de que a filha se tinha afastado.

Não falei com ela, limitei-me a sair da loja depois de ver que a menina estava entregue à família, mas fiquei com a sensação de que aquela mãe não teve noção de como esteve perto de perder a filha, possivelmente para sempre. Fosse eu uma raptora e a esta hora estaria mais uma família destroçada, desesperada, a polícia em alvoroço, e aquela criança sabe-se lá em que estado.

Foram dois segundos. Não mais.

Já não é novo

Mas continua a ser genial!

6 de outubro de 2010

Coisas que podendo fazer mal ao corpo fazem muito bem à alma

Estar horas a conversar com amigos de longa data no Facebook, por ser impossível fazê-lo pessoalmente. Espremendo bem, o sumo não é nenhum. Não se falam de problemas, não se discutem políticas nem filosofias nem economia nem nada de jeito. Dizem-se disparates, muitos. Tantos que a certa altura a barriga dói de tanto rirmos. Perdemos a noção das horas e quando damos por isso passa da 1 da manhã e não temos sono e queremos continuar ali. Insultamo-nos como sempre fizemos, mas sabemos bem que o fazemos porque nos adoramos. Implicamos e ridicularizamos uns e outros, e visto de fora até pode parecer ofensivo, mas entre nós sempre foi assim e vai continuar a ser. Como dizia uma das intervenientes: há coisas que nunca mudam.
Ainda bem.

5 de outubro de 2010

Estranho é

receber um e-mail do chefe não só a agradecer um trabalho feito mas também a despedir-se com smiles.

Welcome to the Twilight Zone!

4 de outubro de 2010

Lembras-te?

- Cheira a chuva.
- Cheira a quê?
- A chuva.
- Mas a que cheira a chuva? A chuva é água, não tem cheiro...
- Não digas disparates! Claro que a chuva tem cheiro.
- Eu nunca senti o cheiro da chuva. Sinto o toque da chuva, as gotas a caírem-me na cabeça, e até já lhe senti o sabor, mas o cheiro nunca.
- O sabor da chuva?
- Sim. Quando chove, abro a boca e deito a língua de fora para apanhar as gotas que caem.
- E consegues apanhá-las?
- Claro que sim! Fecho os olhos, inclino a cabeça para trás, abro a boca e espero.
- Deves ficar com um ar de doida...
- E a mim que me importa? Sabe-me bem, sinto-me bem assim. Gosto do sabor da água fria da chuva. Mata-me a sede.
- Mata-te a sede? Mas não deves conseguir apanhar mais de umas poucas gotas...
- Não se trata de quantidade, mas de qualidade.
- Qualidade? Agora queres convencer-me de que a água da chuva é melhor do que a outra?
- Nada disso. Não sei se é melhor ou pior, nunca me informei sobre o assunto. Mas o prazer que sinto com aquela meia-dúzia de gotas de água é incomparável. Naquele instante, por uns segundos, sou novamente criança. Não tenho preocupações, nem obrigações, nem prisões... Sou feliz.
- E agora não és feliz?
- Sou, claro. Não tenho motivos para não ser. Mas não tanto como quando sinto o sabor da chuva.
- ...
- Não dizes nada?
- Não sei que te responda...
- É assim tão estranho gostar de beber a chuva?
- Não sei. Eu prefiro sentir-lhe o cheiro.
- E ele a dar-lhe... Qual cheiro?
- O cheiro da terra molhada pelas primeiras chuvas...
- Sabes que não passa do cheiro das bactérias em contacto com a água?
- Sei. Nem por isso deixa de ser bom. Mas não é só esse cheiro.
- Não é?
- Não. É o cheiro da renovação, é o cheiro do amor, é o cheiro da vida a recomeçar.
- Não quererás dizer a acabar?
- Claro que não! Com a chuva recomeça o ciclo da vida.
- Seja como for, agora não está a chover. Como podes dizer que cheira a chuva?
- Sinto o cheiro da chuva a chegar.
- Ah! Agora também és meteorologista?
- Não brinques, estou a falar a sério. Sinto no ar um aroma especial, que nem sei definir...
- Mas sabes que é aroma de chuva?
- Sei.
- Como podes ter a certeza?
- Porque é o cheiro que senti quando te beijei a primeira vez. Estava a chover, lembras-te?

O Cheiro da Chuva, Fábrica de Letras

3 de outubro de 2010

Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como, e dói não sei porquê.

Camões

Nonsense (ou talvez não), agora em língua de gente

Ao fim do dia, no autocarro, uma senhora que acabou de fazer a limpeza nos escritórios conversa com outra que é empregada de mesa, mas que actualmente não trabalha porque está de baixa. Aparentemente, o marido da primeira é ladrilhador e trabalha ali naquele edifício ao fundo da rua que tem os andaimes encostados à parede. Amanhã tem um dia muito ocupado pois tem de pôr os azulejos na entrada.

E depois há o outro que bate à porta do escritório e pergunta, antes de entrar: 
- Posso incomodá-la?


(A primeira versão não era muito mais divertida? Era.)

1 de outubro de 2010

Nonsense (ou talvez não)

Ao fim do dia, no bus, uma senhora que acabou de fazer os birús conversa com outra que é servosa, mas que actualmente não trabalha porque está de maladia. Aparentemente, o marido da primeira é carrelor e trabalha ali naquele batimento ao fundo da rua que tem a chafurdagem encostada aos muros. Amanhã tem um dia muito ocupado pois tem de pôr a carrelagem na entrada.

E depois há o outro que bate à porta do birú e pergunta, antes de entrar: 
- Posso desarranjá-la?

A cadeira do escritório


A cadeira do escritório é reclinável. Ou era, deveria antes dizer. Não há muito tempo, o mecanismo ter-se-á estragado, deixando o encosto da dita cadeira preso sempre na mesma posição, imóvel. Quando se tentava recliná-la, forçando as costas do corpo nas costas da cadeira, sentia-se qualquer peça presa, a impedir o movimento desejado. Durou meses a imobilidade das costas da cadeira do escritório. Meses durante os quais, quem ali se sentasse, ficaria limitado à posição ergonomicamente recomendável de costas direitas.

Até que um dia, sem explicação alguma, sem intervenção de qualquer espécie a não ser divina para quem acreditar nessas coisas, a peça ter-se-á desprendido ou partido ou soltado e o encosto da cadeira voltou a mover-se. A cadeira voltou a ser reclinável, tornou-se mais flexível e permitiu maior conforto aos seus utilizadores. Um conforto que será talvez passageiro, por provocar eventualmente danos futuros na anatomia, mas que é também imediato. E como vivemos no imediato, no hoje, mesmo que a lembrar demasiado o ontem e a pensar excessivamente no amanhã, o conforto proporcionado pelo encosto reclinável não só é desejado, como é o único que temos capacidade para contemplar devidamente. Por isso é o mais importante. Até porque amanhã este ou outro mecanismo pode voltar a estragar-se.