14 de novembro de 2010

Os cinco sentidos da saudade


Sempre dá para enganar a saudade...

A Vera perguntou, a Malena também, depois foi o João e, finalmente, a Malena voltou à carga com o mesmo assunto: Saudade. O cheiro, o sabor, o som, o toque da saudade. Fui deixando comentários a uns e a outros, por ser um tema que me afecta de forma especial, talvez por estar longe, acredito que sim, mas não só: por ser portuguesa, e basta. E por saber que há por aí mais gente a quem as saudades batem, e forte, em alguns momentos, e que talvez não leiam a Vera, a Malena ou o João (fazem mal!), e também por querer guardar aqui, no meu canto, o que deixei nos cantos deles, aqui fica o que por lá disse, mas não só.

Olfacto

A saudade cheira bem, cheira a Lisboa... 

Cheira a Tejo; a mar; ao escape dos carros no Rossio; às bifanas afogadas em molho com mais de um mês na tasca; ao metropolitano (especialmente em hora de ponta); a castanhas assadas no carvão; a imperiais e caracóis; ao after-shave do meu pai; à naftalina do baú da minha avó; ao sabonete da minha mãe; aos perfumes dos amigos; ao bolo no forno; a pão quente; a pão com chouriço; a pastéis de Belém e travesseiros de Sintra. Cheira a sardinha assada e vinho tinto e às marchas populares na avenida, no Santo António.

Paladar

A saudade sabe a refresco de groselha e capilé; a arroz de grelos e iscas (duas coisas que odeio, mas o sabor é inesquecível); a bolachas comidas na cama ao domingo de manhã enquanto lia um livro; às caipirinhas e à sangria do jantar com os amigos; ao chocolate que a dona da mercearia me dava quando eu lá ia e me perguntava por que é que eu gostava dela (resposta pronta: porque me dás chocolates); aos gelados na praia; a feijoada e ao creme das bolas de Berlim; a pastilhas Gorila e a Flocos de Neve; ao leite com chocolate Ucal; a caramelos Peña comprados em Badajoz; ao teu beijo.

Audição

Soa aos discos do Marco Paulo com que a vizinha de cima fazia o favor de me acordar; aos gritos da mesma vizinha para acordar os filhos (como se calcula, odiava-a!); à voz da vizinha das traseiras a chamar pelo cão logo de manhã (Pilooooooto!); aos ruídos do rádio que não apanhava bem "aquela" estação da moda que eu queria ouvir; ao Quando o Telefone Toca; aos Parodiantes de Lisboa à hora do almoço; ao Pólo Norte, Pólo Sul e Polilon e às Meias CD ("com CD quem ganha é você"); ao Bacalhau da Maria que ouvi o dia inteiro na praxe da faculdade; à MTV o dia todo no bar da faculdade; às músicas dos concertos a que assisti; aos concertos da semana académica; à música insuportável durante a bênção das fitas no único ano em que tiveram a triste ideia de a fazer em Fátima (Viiiiiinde e louvai-o, viiiiiiinde e louvai-o, viiiiiiiiinde e louvai o Senhooooooor); ao pregão do vendedor de nougat na praia da Costa de Caparica ("É quatro ceeeeeem, quatro ceeeeeem!"); à campainha do carrinho dos gelados no Verão; às músicas no rádio enquanto estudava; à voz dos meus pais ao telefone; às vozes dos amigos que estão longe; ao zurrir do burro na casa onde passava férias em Monsanto (que não sendo a minha terra verdadeira, é o que tenho de mais parecido); à música do Indiana Jones; e, para não destoar, ao barulho dos motores do avião.

Tacto

Tem o toque do teu corpo no meu; do abraço apertado; da mão na testa quando estou doente; das mãos dadas e dos dedos entrelaçados; dos beijos no rosto; dos carinhos dos meus pais; da pele macia; o calor da lareira; a cadeira de palha desconfortável mas tão minha que ninguém se sentava ali quando eu estava; do vento nos cabelos; das picadas de mosquitos; da pedra da calçada; do pêlo do burro (sempre em Monsanto).

Visão

É a última curva do avião ao chegar a Lisboa, em direcção ao Cristo Rei, por cima da ponte 25 de Abril, o Tejo lá em baixo, a mata de Monsanto (esta em Lisboa, não a aldeia da Beira Baixa) do lado esquerdo (tento sempre ter lugar do lado esquerdo do avião só por estes últimos minutos de viagem), a ponte Vasco da Gama lá ao fundo, Sintra e Cascais à direita, e depois sobrevoar a cidade inteira e procurar reconhecer todos aqueles sítios lá do alto. E é o aeroporto e o avião do Zaire que lá está parado há anos a acumular pó. São os sorrisos sinceros nos rostos dos amigos, são as letras no ecrã quando conversamos. São os cabelos brancos da minha avó. São os pedregulhos da aldeia de Monsanto, a paisagem árida. É a praia e o campo, é o Gerês e o Algarve, é Portugal inteiro. É principalmente, e acima de tudo, Lisboa, o rosto dos meus pais e os dos amigos. É para isso que tenho uma estante cheia de álbuns de fotografias.

Sexto sentido

Saudade é a luz e o calor do sol, a cor e o cheiro do mar, a gargalhada da minha prima, o sabor a sal das lágrimas e o rosto dos que já não são.

13 de novembro de 2010

12 de novembro de 2010

Apresento-vos Basil Fawlty...

...e o incrível Manuel. Qué?




Fawlty Towers: outro clássico, este com o magnífico John Cleese.

A propósito de nada

Tive uma colega que aquecia as luvas no microondas de manhã, antes de sair de casa. E um dia lembrou-se de pôr um hambúrguer congelado na torradeira, para ser mais rápido. Correu mal…

11 de novembro de 2010

Aqui não acontece nada

Rick Kirkman & Jerry Scott, Baby Blues 26 - A Desordem Natural das Coisas

Apresento-vos o Dr. House...

...antes de estudar medicina.



Black Adder: provavelmente, uma das melhores séries cómicas de todos os tempos.

Publicidade aqui não, obrigada

Estava ontem a ver o programa “Condenados”, na SIC, por sinal bastante interessante, quando, sem mais nem menos e principalmente sem qualquer importância para a reportagem, a jornalista diz que ficou hospedada na Albergaria X e vai de mostrar a placa com o nome, a recepção, o quarto, tal e qual como se de um programa de turismo se tratasse. A certa altura, pensei até que teria havido um qualquer problema com a edição do programa e teriam misturado uma parte do “Boarding Pass” por engano. Mas não, falava-se de homicídio e adultério, não de monumentos e restaurantes. E nem sequer era num local recôndito do Portugal profundo, não. Estamos a falar da zona de Coruche, a menos de uma hora de Lisboa, pelo que a estadia no local até nem se justificava.

Depreendo, portanto, que a crise também já chegou às reportagens da televisão.

10 de novembro de 2010

Espécie em vias de extinção

Rick Kirkman & Jerry Scott, Baby Blues 26 - A Desordem Natural das Coisas

Efeitos do Outono

O frio, a chuva, o céu cinzento há cinco dias convidam a ficar por casa, aconchegada, embrulhada numa manta, sentada no sofá, um chá quente numa mão, o comando da televisão na outra, um filme romântico no ecrã, a melhor companhia do mundo ao lado.

Mas.

O trabalho, os prazos, as obrigações laborais, os poucos dias de férias que restam e fazem falta para aquela semana que já está programada há tempos, o sentido de responsabilidade, alguma dose de masoquismo, obrigam-me a arrastar-me até ao emprego, embrulhada num casaco, guarda-chuva numa mão, mala na outra, sentar-me numa cadeira dita ergonómica, um filme de terror no ecrã do computador, a pior companhia do mundo nos gabinetes vizinhos. E a repetir tudo amanhã.

9 de novembro de 2010

De repente

Vem não sei de onde, inesperadamente, e atinge-me em cheio como um murro no estômago ou uma onda, um tsunami que primeiro me leva para fora de pé, depois passa-me por cima da cabeça e quase me afoga. Luto para chegar à tona, mas a superfície está cada vez mais longe, a luz do túnel afasta-se como a fugir-me e quanto mais luto mais me canso e sufoco. Perco as forças. E não sei porquê.

Faz-me falta

Foto daqui
O Sol.

8 de novembro de 2010

Onde estás que não te vejo?

Este post do Rafeiro mais bem-cheiroso da blogosfera nacional (se não mundial), a propósito da problemática de dar indicações idiotas às pessoas, lembrou-me de quando eu trabalhava num sítio onde tínhamos um intercomunicador com visor para responder a quem tocava à campainha. Trabalhávamos num open space no último andar e na entrada não havia espaço para ter uma recepção, sendo que nos andares intermédios estavam outras empresas, pelo que convinha ter atenção a quem se deixava entrar nas instalações. Acontece que o aparelhómetro (e respectiva câmara, claro) ficava ligeiramente à direita da porta de entrada e, depois de tocar à campainha, as pessoas naturalmente chegavam-se à porta, não aparecendo no ecrã.

Ora a primeira secretária/recepcionista que tivemos não primava pela inteligência era um bocadinho limitada (a segunda também, mas isso não vem agora ao caso). De maneira que, de cada vez que alguém tocava à campainha, ouvíamos a rapariga literalmente aos gritos, com uma voz irritante e esganiçada:

“Chegue-se um bocadinho mais para trás, mais para tráááás. Mais para a esquerda, para a esqueeeeerda. Não, agora foi demais. Mais para a direeeeeeita!”

Até que um dia um colega, farto de a ouvir guinchar, responde do fundo da sala:

“Mais para ciiiima, que o gajo é anão!”

Definitivamente, é segunda-feira

A página de entrada do Internet Explorer mudou, durante o fim-de-semana, por vontade própria. Segue-se um telefonema para o Helpdesk, porque a porcaria da opção que serve para mudar a página de entrada está desactivada e só os génios do outro lado lhe podem mexer. Seja.

Como sempre, o telefonema é surreal. Só depois de lhe dizer quatro vezes que agora não tenho a página da Intranet mas sim uma página do MSN (e que não carreguei em lado nenhum a dizer que queria mudar a página de entrada) é que o “especialista” percebe qual é o problema. Manda-me reiniciar o computador e eu a lembrar-me da anedota dos três engenheiros dentro do carro, mas não podia dizer nada, não fosse ele ficar ofendido e, de vingança, cortar-me o acesso ao Blogger ou ao Facebook.

Dou-lhe autorização para o acesso remoto e ele vai de instalar uma coisa qualquer que não cheguei a perceber o que era porque, obviamente, assim que ele abriu o IE, lá estava a nossa página da Intranet toda lindinha, como se nada se tivesse passado. Avancemos, que o dia ainda está a começar.

Entretanto, chega o chefe que traz bolos para o pessoal.


Medo!!!

E isto foi só de manhã...

Estrangeiro e estranho # 4

O original não é fiel à tradução. (Jorge Borges)


E agora em Grego, vá!

Perdoem-me o preciosismo, mas este vídeo tão divertido na realidade mostra um intérprete (que para o caso também serve) e dos bons! Muitas vezes confundidos, intérprete e tradutor não são a mesma coisa. Para quem não saiba, a diferença básica é simples: um tradutor escreve; um intérprete fala. Agradeço ao João ter-me recordado este vídeo.

Todas as expressões de que tenho falado nesta rubrica são de difícil tradução. Principalmente, por representarem realidades que não existem necessariamente noutras línguas - ainda aqui hei-de colocar as muitas palavras que os Esquimós usam para neve. Uma dessas dificuldades de que os falantes nativos de português se orgulham é a palavra saudade. Não é que os outros povos não a sintam, naturalmente que sim. Mas provavelmente não lhe dão a mesma importância, pelo que não necessitam de uma palavra específica para designar esse sentimento. Parecendo que não, a saudade é mesmo qualquer coisa tipicamente Tuga - talvez mais do que os pastéis de nata e o bacalhau...

Mas não pensem que somos só nós a ter palavras que dão dores de cabeça a qualquer tradutor minimamente aplicado. Neste artigo (enviado pela Ventania) verificamos que a nossa saudade aparece apenas em 7º lugar, atrás de ilunga (tshiluba) - uma pessoa que está disposta a perdoar quaisquer maus-tratos pela primeira vez (à primeira todos caem), a tolerar o mesmo pela segunda vez (à segunda cai quem quer), mas nunca pela terceira vez (à terceira ninguém cai) - e de shlimazl (ídiche) - uma pessoa cronicamente azarada. Ainda assim, parece que a próxima é mais difícil  de traduzir do que a saudade, embora eu não consiga perceber porquê: pochemuchka (russo) - uma pessoa que faz perguntas demais. Tenho de apresentar umas quantas pessoas aos tipos que fazem estas listas...

Tal como a saudade, a maioria das palavras difíceis de traduzir representam realidades ou situações para as quais não temos uma expressão específica (em alguns casos, no entanto, até davam jeito). Ora digam lá se não queriam ter palavras para:

  • desviar-se da chuva movimentando-se depressa, como em havaiano: 'alo'alo kiki (e eu que pensava que no Havai estava sempre bom tempo!)
  • nadar só com as mãos, também em havaiano: honuhonu (deve ser parecido com nadar à cão, mas eu estava convencida que os havaianos sabiam nadar como ninguém... enfim, mas um mito desfeito.)
  • carregar coisas à cabeça sem as segurar com as mãos, na língua zarma da Nigéria: tallabe (alguém sabe de uma palavra para isto, já que no interior do nosso rectângulo ainda há quem leve bilhas e fardos de palha à cabeça num equilíbrio capaz de desafiar as leias da física?)
  • sentir o corpo preso por estar sentado na mesma posição durante muito tempo, em checo, diz-se: přesezený (será que passam assim tanto tempo sentados na mesma posição para precisarem de uma palavra específica para isto? Quer dizer... podem sempre levantar-se e esticar as pernas antes, digo eu!)

Ainda assim, pelo menos no meu caso, útil mesmo era uma palavra como teklak-tekluk (indonésio) que designa aquele movimento da cabeça a cambalear com sono. As actas das reuniões de trabalho seriam muito mais realistas!

Inspirado por The Meaning of Tingo and Other Extraordinary Words from Around the World, Adam Jacot de Boinod.
Expirado e respirado por Tulipa Negra.

7 de novembro de 2010

Disclaimer

A autora deste espaço não se responsabiliza pelas publicações deste fim-de-semana. Foi tudo culpa do mau tempo, da chuva, do frio, e das nuvens que a possuíram que nem poltergeists assanhados. (Convenhamos que ter as luzes de casa acesas desde manhã cedo é coisa para deixar qualquer um de rastos.) 
E depois era isto ou andar por aí a deprimir pelos cantos... 

Agora se me dão licença, vou ali ao youtube procurar mais umas coisinhas para o João, que parece que já está com saudades.

Domingo à tarde



E quando não há nada para fazer? Procuram-se estas coisas giras no youtube...

Domingo

Quando não há nada melhor que fazer a um sábado à noite

É impressão minha ou a Operação Triunfo bate os Ídolos para aí por uns 10 a 0? 

Nem sequer falo da qualidade dos concorrentes ou da simpatia do júri, mas em termos de espectáculo de entretenimento não tem comparação. Ao menos percebe-se onde a RTP gasta os euros do contribuintes.

6 de novembro de 2010

Durante as férias dos vampiros...

...tenho a companhia dos zombies. É preciso é gente que morre mas não se conforma com isso para animar o serão!


E pela amostra, vale a pena.