8 de novembro de 2010

Onde estás que não te vejo?

Este post do Rafeiro mais bem-cheiroso da blogosfera nacional (se não mundial), a propósito da problemática de dar indicações idiotas às pessoas, lembrou-me de quando eu trabalhava num sítio onde tínhamos um intercomunicador com visor para responder a quem tocava à campainha. Trabalhávamos num open space no último andar e na entrada não havia espaço para ter uma recepção, sendo que nos andares intermédios estavam outras empresas, pelo que convinha ter atenção a quem se deixava entrar nas instalações. Acontece que o aparelhómetro (e respectiva câmara, claro) ficava ligeiramente à direita da porta de entrada e, depois de tocar à campainha, as pessoas naturalmente chegavam-se à porta, não aparecendo no ecrã.

Ora a primeira secretária/recepcionista que tivemos não primava pela inteligência era um bocadinho limitada (a segunda também, mas isso não vem agora ao caso). De maneira que, de cada vez que alguém tocava à campainha, ouvíamos a rapariga literalmente aos gritos, com uma voz irritante e esganiçada:

“Chegue-se um bocadinho mais para trás, mais para tráááás. Mais para a esquerda, para a esqueeeeerda. Não, agora foi demais. Mais para a direeeeeeita!”

Até que um dia um colega, farto de a ouvir guinchar, responde do fundo da sala:

“Mais para ciiiima, que o gajo é anão!”

Definitivamente, é segunda-feira

A página de entrada do Internet Explorer mudou, durante o fim-de-semana, por vontade própria. Segue-se um telefonema para o Helpdesk, porque a porcaria da opção que serve para mudar a página de entrada está desactivada e só os génios do outro lado lhe podem mexer. Seja.

Como sempre, o telefonema é surreal. Só depois de lhe dizer quatro vezes que agora não tenho a página da Intranet mas sim uma página do MSN (e que não carreguei em lado nenhum a dizer que queria mudar a página de entrada) é que o “especialista” percebe qual é o problema. Manda-me reiniciar o computador e eu a lembrar-me da anedota dos três engenheiros dentro do carro, mas não podia dizer nada, não fosse ele ficar ofendido e, de vingança, cortar-me o acesso ao Blogger ou ao Facebook.

Dou-lhe autorização para o acesso remoto e ele vai de instalar uma coisa qualquer que não cheguei a perceber o que era porque, obviamente, assim que ele abriu o IE, lá estava a nossa página da Intranet toda lindinha, como se nada se tivesse passado. Avancemos, que o dia ainda está a começar.

Entretanto, chega o chefe que traz bolos para o pessoal.


Medo!!!

E isto foi só de manhã...

Estrangeiro e estranho # 4

O original não é fiel à tradução. (Jorge Borges)


E agora em Grego, vá!

Perdoem-me o preciosismo, mas este vídeo tão divertido na realidade mostra um intérprete (que para o caso também serve) e dos bons! Muitas vezes confundidos, intérprete e tradutor não são a mesma coisa. Para quem não saiba, a diferença básica é simples: um tradutor escreve; um intérprete fala. Agradeço ao João ter-me recordado este vídeo.

Todas as expressões de que tenho falado nesta rubrica são de difícil tradução. Principalmente, por representarem realidades que não existem necessariamente noutras línguas - ainda aqui hei-de colocar as muitas palavras que os Esquimós usam para neve. Uma dessas dificuldades de que os falantes nativos de português se orgulham é a palavra saudade. Não é que os outros povos não a sintam, naturalmente que sim. Mas provavelmente não lhe dão a mesma importância, pelo que não necessitam de uma palavra específica para designar esse sentimento. Parecendo que não, a saudade é mesmo qualquer coisa tipicamente Tuga - talvez mais do que os pastéis de nata e o bacalhau...

Mas não pensem que somos só nós a ter palavras que dão dores de cabeça a qualquer tradutor minimamente aplicado. Neste artigo (enviado pela Ventania) verificamos que a nossa saudade aparece apenas em 7º lugar, atrás de ilunga (tshiluba) - uma pessoa que está disposta a perdoar quaisquer maus-tratos pela primeira vez (à primeira todos caem), a tolerar o mesmo pela segunda vez (à segunda cai quem quer), mas nunca pela terceira vez (à terceira ninguém cai) - e de shlimazl (ídiche) - uma pessoa cronicamente azarada. Ainda assim, parece que a próxima é mais difícil  de traduzir do que a saudade, embora eu não consiga perceber porquê: pochemuchka (russo) - uma pessoa que faz perguntas demais. Tenho de apresentar umas quantas pessoas aos tipos que fazem estas listas...

Tal como a saudade, a maioria das palavras difíceis de traduzir representam realidades ou situações para as quais não temos uma expressão específica (em alguns casos, no entanto, até davam jeito). Ora digam lá se não queriam ter palavras para:

  • desviar-se da chuva movimentando-se depressa, como em havaiano: 'alo'alo kiki (e eu que pensava que no Havai estava sempre bom tempo!)
  • nadar só com as mãos, também em havaiano: honuhonu (deve ser parecido com nadar à cão, mas eu estava convencida que os havaianos sabiam nadar como ninguém... enfim, mas um mito desfeito.)
  • carregar coisas à cabeça sem as segurar com as mãos, na língua zarma da Nigéria: tallabe (alguém sabe de uma palavra para isto, já que no interior do nosso rectângulo ainda há quem leve bilhas e fardos de palha à cabeça num equilíbrio capaz de desafiar as leias da física?)
  • sentir o corpo preso por estar sentado na mesma posição durante muito tempo, em checo, diz-se: přesezený (será que passam assim tanto tempo sentados na mesma posição para precisarem de uma palavra específica para isto? Quer dizer... podem sempre levantar-se e esticar as pernas antes, digo eu!)

Ainda assim, pelo menos no meu caso, útil mesmo era uma palavra como teklak-tekluk (indonésio) que designa aquele movimento da cabeça a cambalear com sono. As actas das reuniões de trabalho seriam muito mais realistas!

Inspirado por The Meaning of Tingo and Other Extraordinary Words from Around the World, Adam Jacot de Boinod.
Expirado e respirado por Tulipa Negra.

7 de novembro de 2010

Disclaimer

A autora deste espaço não se responsabiliza pelas publicações deste fim-de-semana. Foi tudo culpa do mau tempo, da chuva, do frio, e das nuvens que a possuíram que nem poltergeists assanhados. (Convenhamos que ter as luzes de casa acesas desde manhã cedo é coisa para deixar qualquer um de rastos.) 
E depois era isto ou andar por aí a deprimir pelos cantos... 

Agora se me dão licença, vou ali ao youtube procurar mais umas coisinhas para o João, que parece que já está com saudades.

Domingo à tarde



E quando não há nada para fazer? Procuram-se estas coisas giras no youtube...

Domingo

Quando não há nada melhor que fazer a um sábado à noite

É impressão minha ou a Operação Triunfo bate os Ídolos para aí por uns 10 a 0? 

Nem sequer falo da qualidade dos concorrentes ou da simpatia do júri, mas em termos de espectáculo de entretenimento não tem comparação. Ao menos percebe-se onde a RTP gasta os euros do contribuintes.

6 de novembro de 2010

Durante as férias dos vampiros...

...tenho a companhia dos zombies. É preciso é gente que morre mas não se conforma com isso para animar o serão!


E pela amostra, vale a pena.

5 de novembro de 2010

Invisível

Nem sei por onde começar - e não me respondam "pelo início", já sei que é por aí que devia começar. O problema é que nem sei qual é o início... Bom, suponho que podia começar pelo início de tudo, mas o Big Bang já foi há uns milhões de anos valentes e talvez os dinossauros e a era glaciar não tenham nada a ver com esta história. Ou então pelo dia em que nasci, para mim foi o início de tudo, antes disso nem mundo havia. Mas a verdade é que desde esse dia também já passaram muitos anos, mais do que os que gostaria de contar, e provavelmente as minhas aventuras para começar a andar ou a falar não vêm ao caso. Nem sequer a escola primária onde me arrastei durante mais anos do que devia, as primeiras amizades que entretanto perdi e nem dos nomes me recordo, ou as quedas da bicicleta, mesmo com rodinhas de apoio - desastrado e desequilibrado, como se vê, em mais do que um sentido.

Mas como dizia, nada disto importa para o caso. Vendo bem, nem sei o que importa... A primeira relação amorosa? Talvez. A primeira séria, pelo menos, se bem que para mim todas eram sérias, achava sempre que aquela era a definitiva, era com esta que ia casar e viver feliz para sempre, desde a primeira, aos 15 anos. Bom, deveria antes ter dito a primeira desilusão amorosa, claro está. Foi de facto nessa altura que descobri que era invisível. Quando ela me olhava e não me via, quando falava de mim como se eu não estivesse presente, quando me tocava sem me sentir, quando tomava decisões sem se lembrar de mim e quando decidiu pôr fim àquela relação por já nem se lembrar que estávamos juntos. Este padrão repetiu-se em quase todas as relações amorosas seguintes - não que tenham sido muitas, mas ainda assim foram algumas. Parece que de início sou apenas transparente, notam-se ainda alguns contornos, mas com o tempo a minha condição piora e deixam de me ver de todo.

Depois houve também o emprego que arranjei com a cunha do meu padrinho, não tenho problema nenhum em assumir - sou transparente até nisto. Enfiaram-me numa sala sem janelas, com um computador e vários armários de arquivo, e deixaram-me estar para ali à minha vontade, sem me incomodarem. Só estranhei quando, meses mais tarde, apareceu outra pessoa para fazer o mesmo trabalho que eu... Nunca hei-de esquecer o ar de espanto na cara do chefe quando deu comigo ali, o ar atrapalhado a tentar explicar a situação ao novo funcionário, sem saber muito bem o que dizer, até porque mal me viam! "Estou novamente invisível", pensei.

Já vos disse que casei? Claro que não, que disparate. Pois é, mas casei mesmo, numa cerimónia linda toda organizada pela minha mulher. Se bem que desconfio que o padre nem percebeu muito bem com quem estava a casar aquela mulher, de vez em quando fazia um esforço notório para me ver, franzia o sobrolho e voltava a cabeça na minha direcção. Depois desse dia, tornei-me ainda mais invisível, pelo menos cá em casa. A minha mulher põe, dispõe, faz, decide e nem me vê. Os meus filhos, tenho dois, fazem o mesmo. Desde que se tornaram adultos, principalmente, agem como se eu nem existisse. De transparente a invisível a inexistente, suponho que seja a evolução natural da minha condição.

Pergunto-me como será quando morrer. Imagino o velório, o caixão aberto sem nenhum corpo lá dentro que se veja, toda a família e amigos a olharem, desorientados, a sofrer, a chorar... Porquê? Por quem? E na lápide as palavras “Aqui jaz um homem que nunca ninguém viu".

É esta a história da minha condição: condenado de nascença a passar pela vida sem ser visto. Mesmo vocês que me lêem, não me vêem aqui, à vossa frente, enquanto escrevo estas linhas. Estou cansado, mas nada posso fazer a não ser continuar o meu caminho até que alguém me veja, se conseguir...

Transparência, Fábrica de Letras.

Ah, o amor...

Duas notícias, aparentemente sem relação, acabam por se revelar muito semelhantes.

A primeira fala do regresso dos golfinhos roazes ao estuário do Sado. Pelos vistos, descobriram uma nova cria de um golfinho fêmea que tinha partido e agora voltou a casa. Estranho só mesmo o facto de terem chamado Mr. Hook a uma fêmea, é caso para perturbar a identidade de qualquer um. Mas na verdade trata-se de uma história de amor: a fêmea foi até ao oceano, encontrou um namorado (é o que lhe chamam na notícia), teve um filhote e regressou. Não me perguntem se o namoro acabou, se o malvado não quer assumir a paternidade do filho, se Mr. Hook é uma fêmea independente, não sei responder. Mas é uma história bonita.

Tal como é bonita a história dos 33 mineiros chilenos, aqueles que estiveram presos na mina durante 70 dias. Mas mais bonita ainda será essa mesma história contada num filme pornográfico… com argumento! Que mais há a dizer? O amor está no ar e nem sequer é Primavera.

Cores


Dr. Clay's crayons live in a special box of cardboard that says 120 on it, that's how many all different. They've got amazing names written small up the sides like Atomic Tangerine and Fuzzy Wuzzy and Inchworm and Outer Space that I never knew had a color, and Purple Mountain's Majesty and Razzmattazz and Unmellow Yellow and Wild Blue Yonder. Some are spelled wrong on purpose for a joke, like Mauvelous, that's not very funny I don't think. (...) There's even a white crayon, wouldn't that be invisible?
Emma Donoghue, Room

Prometo que é o último post relacionado com este livro, acaba aqui a publicidade gratuita, mas encontrei a imagem e lembrei-me desta passagem. É mesmo muito bom!

4 de novembro de 2010

E ainda hoje é quinta-feira...

Depois de econômico e de cotidianas, só me faltava mesmo a desconcentração para completar o dia. Isso e as picuinhices de quem não tem mais o que fazer a não ser embirrar com as coisas simples. Gentinha complicada…

Objectivo para hoje (quase) cumprido

Quase consegui matar de susto uma Polaca à entrada da casa de banho. Faltou o quase.

3 de novembro de 2010

Pensamento do dia

It's called mind over matter. If we don't mind, it doesn't matter.

Emma Donoghue, Room

No rádio

- Já de seguida, os És Especial, com "Deixas Saudade".

Identificaram? Pois. Era disto que ele falava:



E aprender os nomes dos cantores e das canções antes de os anunciar, não?

2 de novembro de 2010

Bom, bom...

...é não trabalhar no dia a seguir a um feriado que até calhou à segunda-feira.

Leituras

My favorite bit of Outside is the window. It's differente every time. A bird goes right by zoom, I don't know what it was. The shadows are all long again now, mine waves right across our room on the green wall. I watch God's face falling slow slow, even orangier and the clouds are all colors, then after there's streaks and dark coming up so bit-at-a-time I don't see it till it's done.

Há muito que um livro não me prendia como este, a ponto de, por várias vezes, ter de me obrigar a largá-lo por já passar das 2h da manhã.

Mais do que a história, é a forma como é contada. Jack é um menino que acaba de fazer 5 anos. Vive com a mãe num quarto pequeno, com uma clarabóia e uma porta trancada. Para ele, o Mundo é isto. Embora tenha uma televisão, sabe que tudo o que aí vê é fantasia, as únicas coisas reais são o que existe dentro do quarto. Jack descreve o que vê e o que sente com a inocência e incompreensão próprias de uma criança curiosa e inteligente. E é pela sua voz que vamos percebendo a história, os acontecimentos terríveis que o colocaram a ele e à mãe naquela situação, e toda a coragem necessária para sair dela.

Jack faz-nos olhar para o que nos rodeia de uma forma nova. O Mundo, visto pelos olhos de uma criança que viveu sempre fora dele, é um lugar simultaneamente maravilhoso e assustador.

Segundo o site oficial, a tradução portuguesa está em preparação. A não perder!

1 de novembro de 2010

Estrangeiro e estranho # 3

I see dead people.

Tendo em conta que ontem foi Halloween, hoje é dia de Todos-os-Santos e amanhã é dia dos fiéis defuntos (mais conhecido por dia de finados), vamos falar de fantasmas, aparições e companhia.

A crença de que depois de morrer há mais qualquer coisa está presente em quase todas as culturas e é expressa de várias formas em cada língua. Na Nicarágua (Ulwa), aparentemente acreditam que quando uma pessoa morre liberta um iwang wayaka, espírito invisível que faz barulho. Certo. Invisível até entendo, fazer barulho é que se dispensava porque nestas alturas os vivos precisam de descansar. Já no Nepal (Sherpa) usam a técnica hrendi thenok para contactar a alma de um morto, que pelos vistos não é barulhenta como na Nicarágua, caso contrário seria fácil contactá-la.

Os nossos amigos esquimós (Inuit) tentam a tarniqsuqtuq, a comunicação com um espírito que não consegue partir. E como é que eles sabem disso? Provavelmente, o espírito é barulhento e diz-lhes. Os persas, por seu lado, falam de raskh, ou seja, a transmigração da alma humana para uma árvore ou planta. Não é por nada, mas assim como assim preferia ser um passarito, sempre dava para viajar.

Mas o mundo do além é tema de muitos filmes de terror, sentimento também reflectido nas línguas. Os campeões neste campo são os indonésios. Vejam só estes três exemplos:

- wewe é o fantasma de uma mulher feia com seios descaídos (pois… cada um tem medo do que tem e nada a fazer);

- keblak é um galo fantasma que assusta as pessoas à noite com o barulho das suas asas (não conhecem a lenda do galo de Barcelos, com certeza, porque mais assustador do que o barulho das asas de um galo é um galo morto que desata a cantar);

- kuntilanak é um fantasma disfarçado de mulher bonita para seduzir os homens, que depois ficam horrorizados ao descobrir que, na verdade, ela tem um grande buraco nas costas (bem feita, ninguém os manda pensar com a cabeça errada e além disso é escolher entre o buraco nas costas desta e os seios descaídos da outra).

Para terminar, agora que se aproxima o Natal, nada melhor do que uma figura do gaélico escocês que, desconfio, deve ter influenciado em muito a ideia que temos do Pai Natal, mas ao contrário: bodach é o fantasma de um homem velho que desce pela chaminé para aterrorizar as crianças que se portaram mal. Pais que por aí andam, parece-me que deve ser mais eficaz do que simplesmente ameaçar que não levam prenda!

Inspirado por The Meaning of Tingo and Other Extraordinary Words from Around the World, Adam Jacot de Boinod.
Expirado e respirado por Tulipa Negra.

31 de outubro de 2010

Diz que hoje é Halloween

Cuidado!
 Elas andam aí...

30 de outubro de 2010

Saturday Night