Se calhar isto já não é novidade para ninguém, mas eu acabei de descobrir que há por aí um movimento que quer incluir no dicionário de língua portuguesa a palavra
Mudasti. Até têm uma
petição online e tudo (no momento em que escrevo, tem 113 assinaturas - vá lá, os doidos ainda não são assim tantos).
Pelo que me lembro, isto foi um termo inventado por uma marca de refrigerantes para uma campanha publicitária. Evitavam dizer Iced Tea (a marca concorrente) e incentivavam à mudança. Pronto, percebe-se. Sinceramente, sempre achei a palavra perfeitamente idiota, mas pronto, é publicidade e de vez em quando aparecem uma coisas parvas. Tudo bem até aqui.
Só que agora, não contentes com a publicidade, que é paga, e talvez aproveitando a onda do novo acordo ortográfico, lembraram-se que afinal a palavra já é tão usada que até deve figurar no dicionário. Ora, é certo que eu já não pertenço à geração mais jovem, mas conheço alguns elementos e nunca, mas nunca em ocasião nenhuma, os ouvi usar tal palavra. De resto, o texto da petição reza o seguinte:
Somos o “Movimento Mudasti no Dicionário”.
Representamos todos os portugueses que desejam ver definido nos dicionários da Língua Portuguesa - começando por aquele compilado pela Academia de Ciências de Lisboa - o significado desta nova palavra já utilizada por grande parte dos cidadãos nacionais, independentemente da região de onde são naturais.
Defendemos que a palavra “MUDASTI” merece uma chamada no dicionário.
Trata-se, de facto, de uma palavra que se impôs no léxico da nova geração e cujo significado já está enraizado na cultura popular portuguesa.
Como novo termo do Português moderno, “MUDASTI” começou a ser utilizada em 2005, a partir de um repto publicitário que incitava todos os portugueses a mudar de iced tea (chá gelado).
Mas, rapidamente os portugueses se apoderaram da palavra, encontrando nela a definição ideal para incentivar a mudança de um modo geral. Uma palavra curta e facilmente mnemonizável, que se converteu num incentivo ao abandono de um passado pouco memorável e ao agarrar de um futuro digno dos sonhos de cada um.
Hoje, são imensas as palavras insignificantes com sentidos imperceptíveis como “opidano”, “ingresia” ou “exaurir” que se mantêm presentes nos dicionários da Língua Portuguesa.
Ao mesmo tempo, encontramos nos mesmos dicionários palavras que há muito gostaríamos de ter deixado de utilizar como “crise”, “imposto”, “desemprego” ou “pobreza”.
Se palavras como estas têm um espaço no dicionário, “MUDASTI” merece o seu lugar.
Posto isto, só me resta acrescentar duas ou três coisinhas:
A primeira é que o dicionário da Academia de Ciência de Lisboa é uma bela mer... porcaria. Se nem "robalo" lá vem mencionado, havia de vir agora o mudasti! (Se não acreditam, vão lá ver.)
A segunda é que um dicionário não é um repositório de palavras agradáveis. Por muito que nos custe, a crise, o imposto, o desemprego, a pobreza, e eu acrescentaria a guerra, a fome, a miséria, a catástrofe, entre tantas outras, irão continuar a aparecer em todos os dicionários pelo simples motivo de serem palavras da língua portuguesa.
A terceira é que os dicionários existem também para ajudar a perceber essas palavras com sentidos imperceptíveis.
Alguém devia informar disto os senhores da agência publicitária da Nestea - sim, porque esta ideia brilhante só pode ter saído da cabeça de um publicitário.